nova onda

Apenas reflexos e reflexões de uma alma livre

Pedro Costa

Estudante de arquitetura,ator amador,que tenta ser pintor,da uma de escritor,viciado em cinema,devorador de livros,admirador da dança,louco por música e compartilho com as crianças a compulsão por rabiscar...Fez sentido pra você? Pra mim também não, o dia que fizer a vida perde a graça.

Eu sou mais que seu rótulo

Há alguns dias, resolvi rever o filme O Clube Dos 5. Escrito e dirigido por John Hughes, em 1985, marcou época e se tornou um clássico. John, conhecido por filmes de sucesso como: Gatinhas e Gatões, Curtindo a Vida Adoidado e Esqueceram de Mim, nos traz a história de cinco jovens que se encontram e se conhecem na detenção do colégio. O filme atinge os jovens e emociona os adultos. Sob um manto de superficialidade, o filme vai se mostrando cada vez mais profundo à medida que entendemos a complexidade dos sentimentos de cada personagem e o poder que a história tem de traduzir uma sociedade construída sobre rótulos.


Clube-dos-Cinco.jpg

Desde pequenos, somos obrigados a conviver com rótulos. Somos padronizados e, aos olhos da sociedade, não podemos fugir desse padrão. É uma maneira de facilitar o julgamento. Julgamos e somos julgados o tempo inteiro e sofremos por conta disso. Por exemplo, se alguém está acima do peso, é logo identificada como preguiçosa, desleixada, avessa à prática de esportes, infeliz, depressiva, descontrolada, compulsiva... Pronto, está construída a prisão de pré conceitos, é apontada e julgada; Rótulos são tão naturais que sempre estranhamos professores de Educação Física acima do peso. Não conseguimos entender que uma pessoa pode ter passado por um momento difícil e isso resultou no estado em que ela se encontra, não pensamos que esta pessoa pode ter escolhido ser assim, talvez ela não gosta de ser magra. É incrível nossa necessidade de enclausurar as pessoas em uma caixinha, é automático. Julgar o outro, talvez, deixe nossa vida menos pior, a verdade é essa. Apontamos talvez por medo que percebam em nós o que tanto julgamos no outro, é como tirar a atenção de si próprio. Deveríamos compreender, de uma vez por todas, que ninguém é igual a ninguém, e todos temos motivos pra ser o que somos. Cada um passa por determinados momentos, traumas e situações que, de alguma forma, vai moldando a personalidade até se tornar o que é .

Voltando ao exemplo da pessoa acima do peso, podemos citar duas realidades (de trilhões): Uma criança teve uma família estruturada, uma infância tranquila, uma boa base pode ter desenvolvido uma personalidade segura e autoconfiante a ponto de escolher ser gorda, se colocando acima de qualquer padrão social. E podemos ter alguém com muitos problemas durante toda a vida, traumas na infância, sentimentos mal resolvidos... podendo estar acima do peso como consequência de um psicológico desestruturado. Estes são apenas dois exemplos de muitas possibilidades. Precisamos de uma sociedade mais compreensiva e tolerante, precisamos aprender que ao prender uma pessoa em uma caixa, em um estereótipo, estamos aprisionando e limitando um ser com grande potencial, estamos privando alguém de se descobrir, de se permitir, de viver e ao fazer isso inconscientemente estamos nos aprisionando cada vez mais nos rótulos que usamos nos outros. Rótulos são uma maneira de limitar a alma. Clube dos 5 vem com essa premissa.

elenco-clube-dos-cinco.jpg

O filme começa com a leitura de um texto, o qual só seremos apresentados com o decorrer do filme. Os alunos vão chegando na escola de carro com os pais, em pleno sábado, para cumprir a detenção. O pai de Claire chega tentando acalmar a filha e dizendo que irá recompensá-la pelo sábado ‘’perdido’’. Logo depois chega o carro de Andrew, onde o pai diz compreender a situação do filho e diz que também já aprontou muito na escola, mas nunca foi pego. Em seguida, chega Brian com a mãe, esta não aceita a situação do filho e insiste que ele não deve perder tempo e aproveitar para estudar na detenção. Temos a chegada de Johnny, sozinho. E, ainda, Allison saindo do carro sem nem mesmo receber um ‘’adeus’’ do responsável. Nesse pequenos diálogos é destacada a importância que a família tem na construção do indivíduo, os pais como alicerces na formação da personalidade e a família como instrumento de socialização e controle. O filho, por sua vez, vai refletir no futuro tudo que viveu com os pais, as primeiras pessoas com quem se relacionou. O diretor do filme sabendo o quanto somos tendenciosos revela na leitura do texto inicial alguns rótulos muito comuns nas escolas de Ensino Médio: um criminoso, uma princesa, um atleta, um cérebro e uma lata de lixo, nos levando a enquadrar cada personagem em seu rótulo.

Quando os alunos chegam na sala, cada um procura seu lugar de uma forma diferente, revelando, de forma sutil, aspectos de suas personalidades, ao fim desta cena já aprisionamos todos personagens em sua ‘’caixa’’. Depois disso, somos apresentados ao diretor da escola, que seria a personificação da relação sociedade-indivíduo; uma pessoa autoritária, controladora, imponente. O diretor não se preocupa com a vida de nenhum dos personagens, só está preocupado em lapidar as criaturas para encaixá-las em um sistema, como meras engrenagens. cinco furiosos.jpg O mais interessante acontece quando o diretor não está na sala. Nós estamos tão presos aos rótulos que, muitas vezes, não percebemos a existência deles, apenas aceitamos como algo natural e, assim, perpetuamos essa cultura de estereótipos. O mesmo acontece com os personagens, eles estão domados e conformados com seus rótulos, tão conformados que não se permitem conhecer uns aos outros por, aparentemente, fazerem parte de ‘’padrões sociais’’ diferentes. Temos, também, um zelador.

Este seria uma visão de fora, ele sabe da vida de todos, ouve a conversa de todos por anos na escola, porém nunca interviu, nunca se envolveu com as histórias dos alunos ou dos docentes. Sempre observou tudo de fora e por isso consegue analisar a situação de forma fria e racional. Temos um bom momento de diálogo entre o diretor e o zelador em um uma sala longe dos alunos: ‘’ DIRETOR : -A cada ano esses alunos se tornam mais arrogantes/ZELADOR: - Não é assim, não foram eles que mudaram, foi você.’’. O filme concentra parte de sua força nos diálogos, sempre significativos e marcantes. É incrível a capacidade dessa história de colocar um pouco de cada um de nós em cada personagem. A todo momento, é possível relacionar situações da nossa vida com diálogos ou situações do filme. O autor consegue traduzir dilemas sociais em uma sala de aula, de forma prática e eficiente. Temos um grandioso filme com um pequeno elenco e apenas uma escola como locação.

Com passar do filme podemos acompanhar o relacionamento dos alunos que sempre estudaram na mesma escola, mas não se conheciam. Entre discussões, insultos, risadas e brincadeiras eles inciam uma grande aventura pelo interior do outro sempre descobrindo o que há de mais profundo em si mesmo. Cada um vai descobrindo que por trás de cada esterótipo há alguém incrivelmente parecida consigo mesmo. As horas vão passando e eles vão saindo de suas ‘’caixas’’ e se permitindo conhecer o outro e, assim, tomam coragem para encarar a si mesmo. Eles percebem fraquezas em comum e passam a ter um sentimento de cumplicidade em relação ao próximo. Todos descobrem que John, o criminoso, sofre com a violência doméstica e viveu em um ambiente hostil. Brian, o cérebro, sempre foi muito cobrado pelos pais para ser o mais inteligente que pudesse ser. Claire, a princesa, vive o momento do divórcios dos pais, que a usam apenas como arma para atacar um ao outro. Andrew, o atleta, não consegue dizer ao pai que não quer ser atleta, é manipulado pelo treinador e pelo pai, que querem fazer dele um grande lutador. Já Allison, a lata de lixo, é completamente ignorada pelos pais e se coloca sempre à margem do mundo, solitária e autossuficiente. É bem divertido acompanhar o dia da detenção desses jovens, o enredo se desenrola de forma leve e dinâmica, até que somos levados ao clímax do filme: uma cena em que, despidos de qualquer escudo, os alunos se entregam uns aos outros em um diálogo que emociona pela sinceridade. Uma curiosidade é que o diretor deixou que os atores improvisassem nessa cena, deixando tudo da forma mais natural e verdadeira possível. Nessa discussão, podemos perceber a pressão que a sociedade exerce sobre o indivíduo, e o quanto somos um produto dela ou um produto de nós mesmos.

A grande rebeldia se torna nos libertar dessa ’’caixa’’ em que nos aprisionaram e que nós nos permitimos permanecer. Temos grandes diálogos como o desabafo de Andrew : ‘’O que é ser esquisito? Todos somos esquisitos só que uns escondem melhores que os outros.’’ E em um outro momento : ‘’Às vezes eu queria que meu joelho estourasse e eu não pudesse lutar nunca mais’’, Brian: ‘’Quando eu me vejo, eu não gosto do que vejo, nem um pouco’’, e diálogo, onde Allison questiona a virgindade de Claire e ela pondera, antes que Claire responda Allison conclui: ‘’É uma faca de dois gumes, se disser que nunca transou é uma puritana e se disser que transou não passa de uma vadia, não tem saída, você quer e não pode e quando faz se arrepende.’’ Enfim, temos o desabafo de Claire : ‘’Eu detesto ter que fazer tudo que meus amigos dizem, vocês não conseguem entender a pressão que eles fazem na gente’’. Allison ainda completa com, talvez, a fala mais memorável do filme: ‘’É inevitável, quando a gente cresce nosso coração morre’’.

the_breakfast_club_2.jpg

Analisando mais a fundo essa cena podemos perceber aspectos filosóficos ligados a teoria da ética da compaixão de Schopenhauer. O filósofo acredita que as relações humanas nos permitem identificar o valor da moralidade, reconhecendo a compaixão como o único sentimento realmente moral, pois está acima de qualquer interesse, visto que quando o indivíduo se reconhece no outro por meio do sofrimento. Quando ambos compartilham o sofrimento e a dor podemos enxergar o nascimento da compaixão que seria reconhecer o outro como um igual, de acordo com Schopenhauer, o sofrimento do outro nos atinge de tal forma que podemos sentir piedade e enfim compaixão, é um fato inegável da consciência e esta não repousa sobre pressupostos ,religiões ou classe social, mas se apresenta , enraizada na própria natureza humana.

Clube dos 5 confirma essa teoria quando os alunos, enfim, se relacionam como nunca antes, eles descobrem que nos corredores da escola passavam por eles pessoas incríveis, as quais eles se privavam de conhecer por meros rótulos sociais. No inicio do filme o diretor pede para que cada um escreva uma redação com 1000 palavras respondendo a pergunta : ‘’quem é você?’’, no fim ninguém escreveu a redação e a tarefa fica sobre encargo de Brian que escreve um texto que, afinal, é o que inicia o filme, porém somente no final nós conseguimos enxergar algo muito mais profundo e significativo que na primeira leitura, conseguimos enxergar a humanidade por trás desses rótulos e finalmente somos brindados com clássica cena de John Bender erguendo o punho em pleno campo de futebol ao som de ‘’Don’t you forget about me’’, uma canção do grupo Simple Minds feita para o filme que se tornou um hino do Clube dos cinco. E quando vemos as letrinhas subindo estamos completamente apaixonados por cada personagem e nos sentimos, realmente, parte desse grandioso Clube dos Cinco.

cenafinal.jpg


Pedro Costa

Estudante de arquitetura,ator amador,que tenta ser pintor,da uma de escritor,viciado em cinema,devorador de livros,admirador da dança,louco por música e compartilho com as crianças a compulsão por rabiscar...Fez sentido pra você? Pra mim também não, o dia que fizer a vida perde a graça..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 4/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Pedro Costa