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Apenas reflexos e reflexões de uma alma livre

Pedro Costa

Estudante de arquitetura,ator amador,que tenta ser pintor,da uma de escritor,viciado em cinema,devorador de livros,admirador da dança,louco por música e compartilho com as crianças a compulsão por rabiscar...Fez sentido pra você? Pra mim também não, o dia que fizer a vida perde a graça.

O concreto ideológico de Paulo Mendes da Rocha – As Casas do Butanta

‘’A arquitetura é música petrificada’’ já dizia Goethe, assim como a música ou qualquer outro tipo de expressão artística, a arquitetura tem muito a dizer em suas formas e materiais. Paulo Mendes da Rocha,um gênio nacional, reconhecido internacionalmente, nos ensina o quanto pode ser dito e expresso através de uma obra. Entre o cinza do seu concreto e a leveza do vidro somos guiados por suas ideologias,sensibilidades e sentimentos.


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Paulo Mendes da Rocha é um grande arquiteto brasileiro, reconhecido internacionalmente por sua contribuição nos movimentos modernista e contemporâneo. O arquiteto demonstrou toda sua genialidade no decorrer de sua carreira, genialidade essa refletida em suas inúmeras obras. Influenciado pelo brutalismo europeu e o minimalismo, ele trouxe ao modernismo brasileiro uma autenticidade que elevou a níveis internacionais o talento brasileiro. Fez parte da grande geração de arquitetos modernistas brasileiros no século XX, além de participar do que ficou conhecido como Escola Paulista; um movimento encabeçado por outro nome da arquitetura brasileira : Vilanova Artigas. A Escola Paulista tem esse nome ter sido um movimento majoritariamente formado por arquitetos paulistas ou que atuaram principalmente em São Paulo. O movimento seguia uma linha de projeto guiada por ideias que ressaltavam a importância social da arquitetura na sociedade, tendo como principais características uma arquitetura ‘’crua, limpa, clara e socialmente responsável’’. Galardoado pelo Prêmio Pritzker (considerado o Oscar da arquitetura) em 2006 e vencedor de inúmeros prêmios de arquitetura, se tornou um ícone, se destacando entre nomes internacionais e levando para o mundo a identidade brasileira e reforçando o destaque que país estava conquistando no cenário arquitetônico.

Assim como todo artista, Paulo Mendes da Rocha buscou expressar suas crenças e ideologias em suas obras. Se alinhou a outros profissionais, os quais se identificava artisticamente e profissionalmente, e buscou se espelhar em grandes referências mundiais, tudo isso contribuiu para sua gloriosa evolução no mundo da arquitetura. O arquiteto conseguia, com maestria, se comunicar através de suas obras. O projeto das Casas do Butantã é um belíssimo exemplo que nos mostra essa qualidade do profissional, talvez por ser um projeto pessoal - afinal se tratava de sua própria residência e uma residência para sua irmã - portanto a liberdade de criação permitiu que este explorasse e manifestasse sentimentos e ideologias,ainda lhe permitindo testar novos métodos construtivos. O projeto chegou a ser chamada pelo próprio arquiteto de: ‘’um ensaio de peças pré fabricadas’’.

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A residencia projetada em 1964 e concluída em 1966, possui características e peculiaridades que, de certa forma, revelam um certo posicionamento social e político do arquiteto. Na década de 60 o Brasil via na expansão urbana o reflexo do seu processo de industrialização, com discussões fomentadas pela recente construção de Brasília e pelos novos rumos que o país estava tomando. Em meio a todo esse desenvolvimento a arquitetura brasileira se deparava com um problema que até hoje é motivo de discussão: a habitação de baixa renda, tema que estava sendo muito discutido pela Escola Paulista, apesar de ser uma discussão mais ideológica que técnica, esse fator influenciou Paulo Mendes da Rocha a testar soluções projetais que fossem capazes de resolver tal problema. Era preciso desenvolver um modelo focado na construção em massa e de qualidade, que se mostrasse eficiente tanto economicamente quanto socialmente, para acompanhar o processo pelo qual o país estava passando.

As casas do Butantã são duas casas muito semelhantes com pequenas diferenças de planta e de detalhes, uma se tornou a própria residencia do arquiteto e a outra ele construiu para irmã, porém a construção de duas residencias reforçava a ideia da construção em massa, e ainda a escolha pelo concreto pré moldado era justificada pela da redução de tempo que proporcionava devido a facilidade de montagem. O arquiteto utilizou também matéria prima do próprio local na intenção de reduzir o custo da construção, ambos fatores são essenciais para eficiência da construção em massa, a qual exigia a redução de tempo e dinheiro. A simplicidade e o rigor estrutural da obra impressionam e reforçam todo esse objetivo de economia energética. A estrutura é formada por duas lages retangulares sustentadas por 16 vigas que se apoiam em apenas 4 pilares. O concreto é exposto, assim como todo sistema elétrico e hidráulico, o que facilita qualquer processo de manutenção. A as paredes divisórias internas da residência não isola os ambientes completamente, a lage é nervurada com as vigas completamente expostas, fato que impede que as paredes se estendam até o teto. O arquiteto justifica essa opção dizendo que isso permite uma maior interação entre a família que reside ali, afinal quem está conversando na sala pode ser ouvido do quarto, assim como, uma pessoa que esta na cozinha pode se comunicar com quem está na sala. Tal interação é preservada por escolha do arquiteto. O vão entre a parede e o teto também influenciam na melhor ventilação da casa e dos quartos, visto que os quartos não possuem janelas (isso pode ser visualizado na planta, onde o arquiteto concentra todos os cômodos no centro da casa para manter dois corredores laterais que ligam as áreas posterior e anterior da casa),a iluminação dos ambientes mais internos da casa é dada por claraboias dispostas na lage. A planta da casa também se justifica pela vontade do arquiteto de quebrar com o conceito de áreas privadas e públicas, rompendo com modelos tradicionais ditados até então.kjkg.jpgplanta pmr.jpginterior sofa.jpg

Paulo Mendes da Rocha sempre visou construir uma residencia voltada para melhor convivência familiar, guiado pelos sentimentos lúdicos da infância de seus filhos, o arquiteto traz à casa um conceito de proteção, acolhimento, esconderijo; por isso ele opta por enterrar a casa em um relevo médio natural do terreno e trabalha com um paisagismo arbóreo e denso que ‘’protege’’ a residencia, além disso a cobertura pode ser comparada a uma ‘’casca’’ firme e sólida. Ele consegue atender seus próprios desejos sem perder a beleza ou qualquer outra qualidade construtiva. Nas casas podemos perceber a total harmonia entre a forma, a materialidade e a funcionalidade. O contraste entre o vidro e o concreto nas fachadas ressaltam a beleza que há na linha tênue entre a brutalidade e a leveza. No interior a iluminação destaca o ‘’diálogo’’ que há entre a madeira, escolhida para o revestimento do piso, o concreto cru e o vidro. Beleza e funcionalidade são abjetivos atingidos com louvor pelo projeto. As Casas do Butantã se tornaram verdadeiros ícones da arquitetura brasileira, obras-primas de Paulo Mendes da Rocha que expressaram com clareza a sensibilidade do artista com relação aos problemas sociais enfrentados pelo país, ao mesmo tempo sua preocupação com a adequação da arquitetura brasileira ao novo quadro de industrialização no qual o Brasil se encontrava. Sugerindo uma massificação e industrialização da construção o arquiteto testa e propõe a pré-fabricação como alternativa e até solução. A relação entre arte e industria estava sendo muito discutida em todas as áreas da arte nesse período, e buscava traduzir e entender o momento pelo qual o mundo estava passando, não diferente, a arquitetura se deparou com tal dilema. Enquadrada à realidade brasileira, as obras de Mendes da Rocha são a reflexão do que acontecia na época. Seu concreto solidificava sua ideologia e trazia autenticidade a suas obras, o tornando um dos maiores e mais geniais arquitetos da história.

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Pedro Costa

Estudante de arquitetura,ator amador,que tenta ser pintor,da uma de escritor,viciado em cinema,devorador de livros,admirador da dança,louco por música e compartilho com as crianças a compulsão por rabiscar...Fez sentido pra você? Pra mim também não, o dia que fizer a vida perde a graça..
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