nubia soares

Catarse em mesa de bar. Vodka é a nova fluoxetina.

Nubia Soares

Prefere um boteco pé sujo à um restaurante fino. Fala bobagens como se não houvesse amanhã e envergonharia a avó na reunião do clube da terceira idade.

Sobre textos, reconstruções e amores platônicos

Quem escreve mantém um processo dialético consigo mesmo e, depois, com os outros. Advirto, isso pode causar mudanças irreversíveis.


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De repente, aquele texto tão meu é um texto de tanta gente. Aquela dor que era minha, a mesma dor que os outros sentem, já não é mais de ninguém. Nossas inquietações são as mesmas que desassossegam tantas almas.

Certo dia o mundo desabou e levantou a poeira de todas as questões varridas por anos para baixo do tapete. Era hora de contar os cacos, separar o que era entulho do que era possível reciclar. Pouco permaneceu intacto.

Lutei com tudo o que tinha: papel, caneta e vocabulário. Percebi-me comprando brigas alheias. Semeei afetos. Fui ferida, caí e me emocionei dezenas de vezes com a identificação e carinho de pessoas desconhecidas, mas que, de algum modo, eu parecia conhecer tão bem.

Compreendi, então, que não somos unidades autônomas bastantes em si mesmas. Para o bem ou para o mal, somos um pouquinho de cada um. Somos um, somos sós e somos todos ao mesmo tempo. Seres diferentes, às vezes tão indiferentes aos outros e tão iguais em essência. Compreendemos melhor a nossa dor quando somos capazes de sentir as dores dos outros.

Escrever não me deu asas. Devolveu-me as pernas, me deu um escudo e uma espada.

Senti cada texto como uma mão estendida, às vezes do lado de fora, às vezes do lado de dentro, quase um grito grafado de socorro.

Mas, de repente, era muita vida para poucas palavras ou era eu que queria ser muito no meio do nada.

Tem um poema de Bukowski que começa assim:

“Se não sai de ti a explodir apesar de tudo, não o faças. A menos que saia sem perguntar do teu coração, da tua cabeça, da tua boca, das tuas entranhas, não o faças. Se tens que estar horas sentado a olhar para um ecrã de computador ou curvado sobre a tua máquina de escrever procurando as palavras, não o faças...”

E eu não fiz. Não fiz para não ter que sentir as agulhadas que cada texto proporciona. Não fiz para tentar me adequar ao mundo mecânico que me rodeia, o qual todos fazemos parte. Passei dias a pensar sobre a complexidade existencial de uma prateleira fora de prumo, que ficou assim pela minha falta de cuidado e interesse de encarar as mesmices diárias.

Mas depois de um longo e tenebroso inverno da alma todo mundo é capaz de renascer.

Renasço numa experiência inédita com o que eu realmente sou, pouco informada dos problemas do mundo e completamente encantada pela patinha do gato que ronrona neste momento ao meu lado. A vida nos impõe pesos que eu decidi que não quero carregar e isso vai ter um preço que devo estar disposta a pagar.

Talvez seja necessário morrer diversas vezes durante a vida, reestabelecer contatos, reencontrar ideologias e inverter prioridades. O que alimenta o ego ou o status social nem sempre alimenta a alma. Às vezes uma reforma não é o suficiente, é preciso desconstruir e reconstruir, ainda que haja um abalo estrutural que demande refazer todas as bases. Às vezes, é preciso ser louco para destruir o que se tem e construir o que não se sabe.

Mas é nessas andanças de carregar pedras e revirar entulhos que vamos (re)encontrando nossos tesouros, misturados à tantos cascalhos.

Num mundo tão caótico e robotizado em questões que já nem me importo mais, encontro seres perfeitos. Gente de coração bom e riso fácil, gente que abraça mesmo distante, que tem sorriso na voz e bondade nos olhos. Pessoas ideais, idealizadas no meu mundo sensível que eu levaria para minha caverna particular.

O amor meu de cada dia, o meu mundo das ideias que vez ou outra me faz escorregar nas bordas do existencialismo e cair de fuça no ideal platônico.

Idealizamos.

Idealizamos projetos e pessoas e futuros incertos, mas que ocorrem em nossa mente num sonhar acordado que nos salva da aspereza do dia-a-dia. Um sorriso, um café, um abraço apertado. Aquele segredo meu, há tempos guardado, dividido em dois copos de suco de lichia em um jantar inventado...

Deixa estar assim, platônico!


Nubia Soares

Prefere um boteco pé sujo à um restaurante fino. Fala bobagens como se não houvesse amanhã e envergonharia a avó na reunião do clube da terceira idade. .
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