nuvem

Um espaço de provocações e tempestades

Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida.

Choram as Mães. Rosnam os Imbecis

Uma sociedade em rede ligada pelo cinismo. A sociedade do espetáculo em cima do picadeiro. Discursos inflamados tentando perfumar o mau cheiro da alma. Um convite a empatia e esperança.


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A escritora e poetisa norte americana, Marianne Moore, sempre dizia que "o mundo é o lar de um órfão".

Se você anda por aí com os olhos abertos, provavelmente seja constantemente provocado/perturbado pelos mais diversos tipos de realidade a sua volta. Invariavelmente, somos confrontados nas nossas atitudes e provados em nosso discurso religioso, político, social, etc.

Não são poucas as vezes que, simplesmente, ignoramos, viramos a cara ou mudamos a direção pra não precisar ter uma conversa consigo mesmo e sentir-se obrigado a tomar algum tipo de atitude coerente e, por consequência, incomoda.

Ocasionalmente, nos justificamos para nós mesmos através de possíveis ações num passado distante, uma ajuda oferecida ou uma ideia concebida e guardada nos baús da alma que nos faz sentir, talvez, acima do padrão dos meros mortais. Até mesmo, um post em alguma rede social que tenha rendido muitos likes, mesmo que não represente a práxis da nossa vida.

Tudo para ignorar nossa latente hipocrisia.

Dia desses li uma história contada pela escritora Anne Lamott que me colocou de frente pro espelho, nú, embaraçado e envergonhado.

Um menino de 8 anos tinha uma irmã mais nova que estava morrendo com leucemia e precisava de uma transfusão de sangue. Os pais explicaram ao menino que o sangue dele provavelmente era compatível com o da irmã e que, se aquilo fosse verdade, ele poderia ser o doador. Perguntaram se podiam testar seu sangue. Ele disse que sim. Então fizeram o teste e o sangue se revelou compatível. Depois, os pais perguntaram se ele daria à irmã meio litro de sangue e disseram que aquela poderia se a única chance dela sobreviver. Ele respondeu que precisava pensar durante a noite.

No dia seguinte, o menino procurou os pais e disse que estava disposto a doar o sangue. Então foi levado para o hospital onde o colocaram em uma maca ao lado da irmã de 6 anos. Uma enfermeira coletou meio litro de sangue do menino e, em seguida, começou a transfusão na irmã. O garoto ficou deitado na maca em silêncio enquanto o sangue gotejava e penetrava na irmã até que o médico foi ver como ele estava. Então o menino abriu os olhos e perguntou: "Quanto tempo até eu começar a morrer?".

Talvez você precise de um tempo de silêncio agora.

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Essa história me fez relembrar dois conceitos totalmente diferentes mas que, infelizmente, se confundem em nosso cotidiano:

Doar algo versus doar-se!

Se o mundo é realmente o lar de um órfão, a devoção em oferecer coisas é o reflexo de uma vida cínica. Se não nos reconhecemos no próximo - qualquer próximo, há muito perdemos nossa humanidade, já não somos alguém. Somos algo.

E ai, tudo se explica. Sob a dissimulação construimos nossa vida e não há discurso que evite o mau cheiro da alma.

Não, à toa, quando uma mãe chora a morte de um filho, como o caso da Tati Quebra Barraco, a empatia se desvanece no meio de um mar de desrespeito, descaramento, desfaçatez, perversão e decadência. Umberto Eco, não sem razão, observou o óbvio; "as redes sociais deram voz a legião de imbecis".

Segundo o dicionário, imbecil significa:

adjetivo e substantivo de dois gêneros 1. que ou aquele que denota inteligência curta ou possui pouco juízo; idiota, tolo. 2. obsl. que ou aquele que é fraco, sem forças.

Que a esperança e empatia nos fortaleça e não permita a tolice. Que, remando contra a maré, nos lembremos das palavras de John Donne - nenhum ser humano é uma ilha. Não permitamos que, se as redes sociais são um caminho sem volta na nossa realidade, que ela não seja um arquipélago, mas um continente cheio de vias, portos seguros e pontes.


Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida..
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