nuvem

Um espaço de provocações e tempestades

Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida.

Crônica da periferia: Paulo Coelho, a Polícia e o Bug do Milênio

O fim e o começo de uma era - a virada do milênio - desencadeou eventos que repercutem até hoje. Dizem que o bug não aconteceu. Será mesmo?


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Era virada do ano. 1999 para 2000. Tudo o que se ouvia falar era o tal do "bug do milênio". Entre um tanto de notícias veiculadas no jornal nacional, os sistemas bancários poderiam entrar em algum tipo de colapso e nisso eu torcia para que alguma coisa acontecesse e depositassem algum mísero centavo por engano na minha conta. Na época ganhava cento e cinquenta e um reais - coloco por extenso para não assustar tanto e gerar uma certa expectativa. Era o salário mínimo da época.

Pode parecer um valor deprimente, mas eu era moleque novo no primeiro emprego de escritório. Cento e cinquenta e um reais pra vestir uma roupa pseudo social, ter uma mesa, cadeira e computador só meu com mínimo de acesso a internet e, ainda mais, com ar condicionado? Eu tava sendo pago pra entrar no paraíso.

Eu tinha começado trabalhar por volta dos 13 anos descarregando caminhão com um vizinho que fazia a região de São Paulo para um mercado-cooperativa. Era cansativo. Quase todas as noites dormia até babar nas aulas, apesar de ser um aluno mediano sem grandes problemas de notas. Depois fui trabalhar como servente de pedreiro até tomar um calote no pagamento do salário. O fi-da-égua rancou algumas tiras de couro do lombo e não pagou nem o band-aid.

Então, quando sentei pela primeira vez na minha mesa do escritório de engenharia da empresa que me abrira as portas como aprendiz, só faltei dar carteirada nos 'anjos da guarda', a tal ronda escolar - que servia basicamente pra reprimir a molecada que 'batia o pé' das aulas. Como eu tava sempre com sono, raramente tinha forças pra pular o muro. Ainda sim eles viviam enchendo o raio do saco, sempre que possível.

Lembro uma vez que os "anjos" entraram na minha sala para carcar o fumo em geral porque alguem tinha explodido uma bomba no banheiro dos meninos - fato corriqueiro na escola. Tavam tentando persuadir os alunos a caguetar o responsável. Eu conhecia o cidadão que tinha aprontado. E odiava o moleque. Adoraria vê-lo rodando na mão dos gambés. Mas X9 não fazia minha praia. Na época eu só sonhava em ficar bombado para esfregar a cara dele no chão, o que nunca aconteceu. Nem bombado. Nem esfregar a cara dele no chão. No máximo, um empurra-empurra no futebol. No fim, o desgraçado perdeu um dedo numa outra bomba que ele colocou q explodiu na mão dele. Os pais tiveram que pagar o prejuízo e ele foi expulso da escola.

Mas esse dia do esculacho dos policia na classe, duas coisas me chamaram atenção. Um dos guardas tava com abaixo assinado para que eles pudessem usar arma de fogo na ronda, porque só era permitido cacetete e spray - o que pra mim ja tava ótimo, uma vez que, logo na minha primeira geral tomei uma paulada nas bolas do saco.

Outra coisa foi que no discurso de um dos anjos ele falou algo do tipo "em vez de vocês ficarem com esses vandalismos que a gente pode te levar preso já já, porque não pegam um livro do Paulo Coelho pra ler? Isso pode salvar a vida de vocês". Já na época eu era meio rato de biblioteca e lá fui eu ler Brida, escondido dos meus pais, obviamente, como bom crente que era, porque todo mundo sabe que Paulo Coelho era bruxo - e, descobri também, muito chato, depois daquela leitura.

Então, seu guarda, se por acaso esse texto chegar nas suas mãos e você se reconhecer, só pra te avisar que não me perdi na vida. Mas espero de verdade que tenha melhorado a sua estante e dicas literárias.


Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida..
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