nuvem

Um espaço de provocações e tempestades

Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida.

Divagações sobre a saudade, a linguagem e a música

A intraduzível palavra saudade e a abertura de fronteiras que ela carrega consigo. Uma pequena divagação a respeito dessa palavra plena em português mas que muitas vezes passa despercebida no nosso meio.


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Um dos álbuns que mais tenho ouvindo nos últimos dias se chama "Saudade" da banda norte americana I/O. O trabalho foi lançado em 2014 e, na verdade, é o único registro deles até então. É um material de post-rock instrumental belíssimo. Na descrição, a banda traz o seguinte:

"I/O acredita que a experiência humana pode ser muito bela e grotesca, inspiradora e abominável, reconfortante e traumática para se colocar em palavras"

A empresa britânica Today Translations promoveu uma listagem das palavras mais difíceis de traduzir adequadamente, onde “Saudade” ocupou o sétimo lugar. As palavras que mais se assemelham são “Hiraeth”, do galês, e געגועים (pronuncia-se “Ga’agu’im”), do hebraico, com uma conotação textualmente semelhante. Existe a palavra “tęsknota”, em polonês, mas que falha por só ser aplicada a pessoas apaixonadas e há, ainda, a palavra galega “morriña”, mas que se concentra em, basicamente, sentir falta de casa.

O vocalista do Deftones, Chino Moreno, montou mais um super grupo com membros dos icônicos Bad Brains e Cro-Mags chamado, adivinhem só, Saudade. A música de divulgação, também chamada Saudade, traz uma carga emocional e acordes sujos e tortos.

O último álbum do duo Thievery Corporation (EUA), lançado em 2014, se chama Saudade (ouça aqui ). Uma grande experiência musical numa linha, citada por alguns, como "neo bossa nova".

Essa é uma curta seleção de trabalhos de fora do Brasil falando de uma palavra que é, por assim dizer, nossa.

A questão é que há uma infinidade de trabalhos artísticos – e olha que nem citei nada de literatura – que evocam essa palavra difícil de entender até pra nós mesmos. Normalmente, à utilizamos pra dizer algo indizível que fica remoendo no peito.

Importante pontuar que saudade não é falta. Falta é uma palavra e saudade é outra. E por confundir as duas, elas se perdem no nosso dia a dia. É perceptível quando pessoas de outros idiomas e dialetos acabam se apropriando dela a fim demonstrar algo que sua própria língua não permite.

E é difícil chegar, inclusive, numa conclusão a respeito. Temos uma infinidades de trabalhos em português a respeito. Ainda sim, falar das possibilidades da língua portuguesa e, em especial, da arte brasileira é um paradoxo. Somos o único país de língua portuguesa materna na America Latina e isso, infelizmente, nos afastou de nossos vizinhos em muitos sentidos. Apesar de haver um início movimento dentro do Brasil de "orgulho latino", justamente, a partir da arte.

E a saudade, como palavra e sentimento, parece estar criando essa e outras pontes.

Mas acredito estarmos muito aquém, ainda. Uma pena, já que a diversidade cultural e linguística da nossa nação, que são muitas dentro de uma só, teria um efeito arrebatador na nossa cultura se fosse emergisse para além dos movimentos de resistência artística. É algo que nos faz falta. Uma aproximação com as pessoas comuns no seu cotidiano. Mas justo as falta de abertura para diálogo não nos permite, muitas vezes, a externação da própria saudade.


Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida..
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