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Um espaço de provocações e tempestades

Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida.

Kraftwerk: Os Pais da Música Moderna

Considerado "os Beatles da música moderna", menos pela sonoridade e mais pela ruptura e influência que ainda exerce sobre a música ao redor do mundo, o Kraftwerk continua sendo um misterioso grupo mítico da cultura pop e, por que não dizer, místico? Com uma musicalidade proposta para quebrar paradigmas, performances icônicas e cada vez mais longe da grande mídia, quase 50 anos depois, ainda traz fascínio, curiosidade e arrebanha novas gerações.


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Kraftwerk é um grupo alemão nascido em 1970 e considerado o pai da música eletrônica. Mais do que isso, fundado por Ralf Hütter e Florian Schneider, em Düsseldorf, não poucas vezes, foram citados como “Os Beatles da música moderna”, tamanha influência de suas experimentações sonoras e performances.

Mesmo que, deliberadamente, não se colocando em situação de constante exposição característica do meio – na verdade, sempre se esforçando no sentido contrário. Por exemplo, há alguns anos, uma revista que negociava uma entrevista com Hütter foi informada que ele só poderia discutir sobre sua coleção de bicicletas e que eles não seriam autorizados a mencionar que ele era um membro do Kraftwerk – e serem mais efusivamente reconhecidos dentro de movimentos undergrounds, não há como negar sua contribuição a toda música moderna. House, techno, hip-hop, trip-hop, synthpop, trance, electroclash: a influência do Kraftwerk paira sobre todos eles. Segundo Alexis Petridis, crítico musical do jornal britânico The Guardian, editor da QG Magazine e apresentador do podcast Music Weekly “é difícil imaginar como o rock e música pop soariam hoje se Kraftwerk nunca tivesse existido”.

Quase uma década antes da chamada Neue Deutsche Welle (Nova Onda Alemã), movimento nascido essencialmente do Punk e New Wave no final da década de 70, e a despeito da pouca tecnologia aplicada a música, Hütter e Schneider decidiram embarcar em novas possibilidades. Com formação a partir da música clássica, ao se envolverem como o cenário artístico de Düsseldorf e do que era considerado os movimentos de vanguarda, sentiram a necessidade criar sua própria linguagem para além, inclusive, da distopia musical do Kraustrock, movimento de bandas experimentais alemãs no final da década de 60, na qual contribuíram ativamente com a banda Organisation e lendário álbum Tone Float lançado em 1969.

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Ao se proporem uma forma própria de expressão, investiram na construção de seus próprios instrumentos, efeitos e sintetizadores com a finalidade de alargar as estacas de suas experiências musicais. Inclusive, são muitas as histórias da banda com problemas em apresentações ao vivo com fios e mais fios espalhados pelo palco, possibilidades de curto circuito e equipamentos superaquecendo. Havia muito a se desbravar.

Apesar de empecilhos, em novembro de 1970 era lançado o álbum homônimo Kraftwerk com 4 músicas e quase 40 minutos de duração, ainda que com muitos vestígios do Organisation na sua concepção. Todavia foi o começo da pavimentação de um caminho que desembocaria nos cinco álbuns mais importantes da banda, feitos entre 1974 e 1981: Autobahn, Radioactivity, Trans Europe Express, The Man Machine and Computerworld, perpetuando o legado estético musical do grupo, apegado ao minimalismo e um som mais limpo, uma novidade até então.

Para além da música, se empenharam também no conceito de que o homem e tecnologia são a mesma coisa. Mais do que um instrumento nas mãos do ser humano, a tecnologia, ao mesmo tempo, tem vida própria e é a própria essência do ser. E é dentro dessa estética que as apresentações do grupo são propostas com a utilização de robôs, projeções e efeitos ao longo das décadas. Por isso se atribui também ao Kraftwerk a denominação e enraizamento da "música eletrônica". Não era mais o ser humano o protagonista da música, mas a tecnologia, processos e ferramentos intrínsecos a ela. O Kling Klang, estúdio privado de gravação do Kraftwerk, era considerado por eles "a própria banda". O cérebro de tudo. Segundo palavras de Pascal Bussy, biógrafo, "quase sozinho, o Kraftwerk veio provar que a música eletrônica tinha que ser levada a sério”.

A música Autobahn, originalmente com quase 23 minutos de duração recebeu uma radio edit version de 4 minutos que estourou nos EUA levando o grupo a excursionar pela América do Norte e Reino Unido. Ainda que apresentações em lugares estruturalmente precários como escolas, mas que agregaram possibilidades e criatividade a performance da banda ao longo dos anos.

No auge, o Kraftwerk recebeu convite para turnês conjuntas com, por exemplo, David Bowie. Em outros casos, Elton John, e até mesmo Michael Jackson, na fase de pré-produção do histórico álbum Thriller, tentaram uma aproximação com o grupo. Todos esses rejeitados pela dupla Ralf Hütter e Florian Schneider que pretendiam permanecer à margem de qualquer exposição.

O Kraftwerk já esteve no Brasil 5 vezes. Em 2012, ao substituir de última a hora a cantora Björk no festival Sónar São Paulo, trouxe seu show 3D pela primeira fora dos EUA. O público presente teve a oportunidade de ver, entre outras projeções, os trens de "Trans Europe Express" deslizando freneticamente em sua direção. Outra apresentação icônica foi o show em 2009 com o Radiohead, que passou por São Paulo e Rio de Janeiro. A banda tocou para um público bem diverso. Foi uma surpresa para vários presentes que, em muitos casos, foram ver exclusivamente Los Hermanos que havia sido escalado de última hora para o show, sendo o primeiro dos vários retornos da banda após o anúncio do fim em 2007. Ainda nesse show, a música Showroom Dummies, uma das canções mais conhecidas do grupo, ganhou uma versão inusitada com as letras em português.

Kraftwerk 5.jpgEm 2015, o público brasileiro foi presenteado com o lançamento em português da biografia Kraftwerk Publikation de David Buckley, lançada originalmente em 2011. Outros trabalhos biográficos importantes, somente em inglês e alemão, são Kraftwerk: Man, Machine and Music de Mich Fish e Pascal Bussy e Kraftwerk: I Was a Robot do ex-percussionista da banda, Wolfgang Flür.

Já em 2016, um inusitado tributo ao Kraftwerk veio de São Paulo. A banda Herod, formada em 2006, que entre outras histórias foi escolhida pelo próprio Robert Smith como abertura do The Cure em São Paulo em 2013, fez uma série de shows com versões post-metal das músicas do Kraftwerk muito bem recebido pelo público e crítica. Confira aqui os registros das versões de Antenna e Radioactivity.


Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida..
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