nuvem

Um espaço de provocações e tempestades

Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida.

Um olhar para o cinema iraniano e a representação da mulher

Para os amantes da sétima arte, não há como passar despercebido ao cinema iraniano. Ainda sim, com uma linguagem extremamente sensível, poética e artística, muitas vezes para burlar a censura, parece restrito a pequenos círculos de apreciação. Aqui trazemos um recorte de uma das temáticas que mais fascinam e provocam curiosidades e preconceitos. A mulher islâmica. A mulher iraniana. Pela complexidade e contexto é, obviamente, um assunto que não se esgota. Mas trago aqui um ponto inicial de observação.


b.jpg A atriz Maryam Moqadam em "Cortinas Fechadas" de 2013

Aline Moreira do Amaral é mestre em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Desde muito cedo foi despertada pela curiosidade sobre o papel da mulher no islã. Alimentada dos pré-conceitos nosso mundo ocidentalizado, com definições enviesadas de opressão e liberdade arraigadas na nossa cultura, Aline sempre teve uma visão oblíqua da mulher islâmica. Nada que, mesmo curto, um período de imersão em mesquitas de São Paulo, não trouxesse novos questionamentos, mais abrangentes, a respeito do papel da mulher nessa cultura político-religiosa.

Tudo isso culmina em uma interessante tese de mestrado chamada O IRÃ, O ISLÃ E O CINEMA: A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA OBRA DE JAFAR PANAHI.

Aline traz um recorte muito específico ao analisar a filmografia do diretor iraniano Jafar Panahi que tem uma história conturbada com seu país.

Panahi foi perseguido por autoridades iranianas ao apoiar Mir Hussein Mussavi, o candidato oposicionista, na eleição presidencial de junho de 2009. Posteriormente, sua casa foi invadida e a sua coleção de filmes, tachada de "obscena", foi apreendida. O cineasta foi preso em março de 2010 e, durante seus 88 dias de detenção, fez greve de fome. Mais tarde foi impedido de comparecer ao Festival de Cinema de Veneza.

A.jpg Jafar Panahi no filme "Taxi Teerã", vencedor do Urso de Ouro em 2015

Na ocasião, várias personalidades do cinema – como Steven Spielberg e Juliette Binoche – manifestaram apoio a ele. O próprio cineasta iraniano declarou à corte de seu país “não compreendo a acusação de obscenidade dirigida contra clássicos da história do cinema, nem compreendo o crime do qual sou acusado”. Ainda sim, em 16 de novembro de 2010, Panahi foi a pleno julgamento, acusado de fazer um filme sem autorização e de incitar protestos oposicionistas.

Nesse ínterim, um filme que deu grande visibilidade ao diretor foi o, ironicamente, chamado “Isto Não É Um Filme”. O documentário foi feito clandestinamente no apartamento de Jafar Panahi enquanto cumpria prisão domiciliar e retrata um dia na difícil rotina do diretor perseguido pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad. O filme foi contrabandeado do Irã num pen drive escondido dentro de um bolo e teve sua estreia no Festival de Cannes em 2011, gerando comoção mundial.

O cinema iraniano é constantemente tachado de chato ou cansativo. Nos tempos de Blockbuster, quando acessível, relegado ao espaço, quase sempre abandonado dos filmes cult. Na era dos blogs e acervos online, apesar de maior acesso a informação, nada muda. Os raros críticos de cinema que aventuram em falar a respeito não abandonam o filtro hollywoodiano e, até mesmo, europeu.

c.jpg Cena do filme Offside, 2006

As tomadas mais lentas, longas e, por vezes, sem trilha perdem seu caráter revolucionário e libertário aqui no ocidente, ao tratar diversos temas controversos no Irã, como as várias facetas da mulher, em especial, na filmografia de Panahi. Numa visão oblíqua e imediatista, quase sempre, deixa passar as críticas oferecidas pelo cineasta, mas também a afirmação de muitos pontos de sua cultura que nos são controversos.

A exemplo, no filme Offside de 2006, Panahi nos leva a uma aventura divertida e cheia de cores de mulheres enfrentando uma restrição nacional; assistir um jogo de futebol no estádio, o que para nós soa absurdo, pensando o futebol como paixão nacional. Ainda que em 2015, segundo a Agence France-Presse (AFP), o Irã liberou a entrada de mulheres estrangeiras (e somente elas) nos estádios para assistir jogos da seleção masculina. O país que era candidato para sediar a Copa Asiática 2019, por conta dessa postura, perdeu o pleito para o Emirados Árabes.

d.jpg Cena do filme "Taxi Teerã", 2015

Outro filme interessante, que oferece uma gama mais abrangente de questionamentos, chama-se The Circle, com um subtítulo que expõe muito de sua carga emocional "Seu único crime era ser uma mulher". Esse drama conta a história de circulo social de mulheres, e aqui cabe uma infinidade de metáforas, que pagam o preço por dissocialidades de suas vidas. Solmaz Gholami, uma mulher que da à luz uma filha, enquanto a família do marido ansiava um filho. Moedeh, Arezou e Nargess e a dinâmica dessas três fugitivas de uma prisão. Pari, uma ex-presidiária que é expulsa de casa e decide abortar o filho de 4 meses por seu marido estar morto. Nayereh, uma mulher que abandona sua filha na rua para que alguém possa a adotar e acaba sendo presa em uma blitz policial quando tenta se prostituir. E, por fim, o círculo de uma prostituta que é presa nessa mesma blitz.

Aqui temos questões e provocações mais amplas. O que, num contexto geral, mostra que, apesar das grandes disparidades culturais, esse círculo de opressão feminino é, também, parte do nosso cotidiano.

É preciso reconsiderar a posição da sétima arte iraniana, para além do entretenimento, inclusive. Ainda que deixando de lado do fato de terem uma das melhores fotografias cinematográficas, é uma abertura ao diálogo franco, o repensar de postura em tempos de diáspora, "guerra ao terror" e outros conceitos massivamente espalhados para encarnação do mal e da opressão em povos específicos. É, acima de tudo, um convite a empatia.

e.jpg Mina Keshavarz, documentarista Iraniana

E é dentro desse contexto subversivo que Aline analisa e desmistifica crendices populares relacionadas ao Irã, uma das cinco repúblicas islâmicas do mundo, o islã como regime político e religioso e como o cinema iraniano, com uma linguagem extremamente sensível, poética e artística, muitas vezes para burlar a censura, retrata a mulher de forma sempre provocativa, por conta visibilidade e enfrentamento de Panahi que dialoga com o oriente e ocidente.

Um tema instigante tratado com coragem e paixão pela autora. Mais que um artigo acadêmico, uma grande porta de entrada para quebra de preconceitos e paradigmas em tempos de aldeia global, refugiados e, infelizmente, preconceito acentuado.

Você pode ler todo o trabalho clicando AQUI.


Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida..
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