nuvem

Um espaço de provocações e tempestades

Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida.

O tempo não espera nem o amor

Dizem que o tempo tem poder de curar feridas. Falácia. Ele não cura nada. Na verdade, só encurta os espaços e nos dá a sensação de urgência do que é importante ou não carregar e/ou deixar. Com o tempo não se brinca. Nem o amor pausa os ponteiros do relógio.


Time-Management11.jpg Quando eu estava lá fora, fumando nos fundos da casa, você apareceu pela porta da frente. Assim que soube, joguei o cigarro quase inteiro no chão e entrei correndo. Mas a notícia tinha chego atrasada. Você se cansara de esperar. O que restara, a casa de madeira conservara como um tipo de afronta; o seu doce perfume. Um amargor tomou conta da minha boca. Raiva. O gosto da angústia.

Os dias passaram.

Quando havia esquecido, você apareceu do outro lado da rua, mas não me viu. Ou fingiu não perceber minha presença. O coração estava acelerado, mas me neguei chamar seu nome. Afinal, para você, eu não estava ali. Era o que dizia para mim mesmo. Pura desculpa para falta de coragem.

Os dias se condensaram e semanas voaram.

Cheguei no bar e disseram que você tinha acabado de sair. Me contaram que você estava muito feliz com as novidades. Da boca pra fora me alegrei. Mas não nego a tristeza dilacerante. Eu não era a novidade e nem a sua felicidade.

O tempo se aglomerou e os meses chegaram.

Vi você na livraria. O seu livro. Finalmente, lançado e nas prateleiras em destaque. Comprei um exemplar. E, ao terminar de ler, percebi que havia comprado uma parte de mim. Eu estava lá, mas achei que era coisa da minha cabeça.

O tempo passou e os anos deixaram de ser contados.

Soube que você é mãe. Encontrou seu caminho e está plenamente feliz. Como há muito tempo não fazia, sorri com os lábios e o coração. Sem aquele fiapo de tristeza de não ser uma parte de você.

O tempo parou.

Recebi a temida ligação. Passei por todo velório em silêncio até que nossos amigos chegaram. Passamos algumas horas lembrando tudo o que vivemos. Mas confesso que voltei pra casa pesaroso. Não por sua morte. Você está bem agora. Mas alguém comentou, aleatoriamente, que não entendia o fato de termos nos amado e, por isso, nos separado.

Me senti em tempos passados, sem o mesmo vigor, mas ainda em falta com a coragem.

Hoje me despeço desse mundo com a pergunta que me fez acordar pra vida. Você me ama? Hoje eu sei. Mas nunca ouvirei sua resposta.


Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida..
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