nuvem

Um espaço de provocações e tempestades

Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida.

O Grande Amigo

Certa vez me convidou para almoçar na sua casa. Disse que ia me preparar uma iguaria, mas que eu precisava chegar cedo na casa dele pois ia ajudar no processo. Nem pestanejei. Ele tinha uma filha linda, um ano mais nova que eu, da qual eu vivia enchendo o saco chamando-o de sogro. As 9:00 da manhã no domingo eu estava batendo na porta de madeirite da sua casa.


foto-1-aluga-se-um-barraco.jpg

Aos 18 anos, comecei a trabalhar de peão (chão de fábrica) numa empresa alimentícia perto de casa.

O trabalho era uma merda, o horário pior ainda, das 14:00 as 22:00 de segunda à sábado, o salário era de fazer chorar, mas o ambiente era o melhor possível, salvo exceções de alguns tantos.

Era um bando de gente fodida mas extremamente divertida e cheia de causos pra contar. A hora voava, salvo aos sábados e hora-extra no domingo, em que todo mundo não via a hora de sair para tomar cerveja ou vinho barato — na época eu só bebia chapinha e correlatos.

Mesmo quando alguém perdia um ou dois dedos no maquinário — isso aconteceu algumas vezes -, ou uma penca de chefes incompetentes (pra pouco índio) que chegaram aos cargos por serem amigos do dono, um idiota completo que recebeu a empresa de herança, vinha encher o saco, era difícil perder o bom humor na sessão.

Um dos empacotadores era um senhor na casa dos 60 anos que toda segunda-feira tinha uma história diferente para contar. Ele adorava as baladas da terceira idade, mas dizia que era muito exigente em relação as suas parceiras. Todas eram tão novinhas que muitas não tinham cabelo nem dente. E eram mulheres completas, como ele. Tinham pressão alta/baixa, artrite, artrose, diabetes e por ai vai!

Um dos meus melhores amigos era um senhor de 50 anos que chamava todo mundo de amigo(a) e, por isso, esse era seu apelido.

O Amigo vivia me contando das empreitadas sexuais que ele tinha com a esposa. Me contou certa vez que tinha recebido sexo oral com bala halls (xurias) e tinha gostado bastante e depois resolveu ir para os finalmente com a brilhante ideia de usar aquelas pastas de dente closeup tipo halls. A mulher quase matou ele na pancada.

Nunca tinha rido tanto na vida! Até hoje quando lembro da história, o seu sotaque me vem a mente e começo a gargalhar.

Amigo morava numa ocupação, um grande morro perto da empresa, que anos mais tarde, evoluiu para um assentamento muito bem organizado. Ao redor havia mata fechada.

Certa vez me convidou para almoçar na sua casa. Disse que ia me preparar uma iguaria, mas que eu precisava chegar cedo na casa dele pois ia ajudar no processo. Nem pestanejei. Ele tinha uma filha linda, um ano mais nova que eu, da qual eu vivia enchendo o saco chamando-o de sogro.

As 9:00 da manhã no domingo eu estava batendo na porta de madeirite da sua casa. Pegou algumas sacolas e mandou segui-lo. Adentramos a mata por uma trilha e ele começou a olhar, o que vim saber logo em seguida, algumas armadilhas. Cinco minutos de caminhada e ele tinha preso um Tatu, que havia sido abatido a pouco tempo.

Ele foi me ensinando como cortar, limpar e todo o preparo com ervas e muita cenoura.

Rango.jpg

O almoço demorou uma eternidade pra ficar pronto, mas foi delicioso. Anos mais tarde li várias reportagens do mal que a carne de Tatu faz, mas não importa. Aquele foi um ótimo domingo entre amigos.

Depois que sai da empresa, infelizmente, fomos perdendo o contato, até que descobri por um amigo em comum que ele tinha sido morto numa briga de bar.

Fiquei inconsolável, porque apesar de adorar uma caninha, ele definitivamente não tinha o perfil de brigão e amava demais sua família para se meter nesse tipo de encrenca.

Me lembrei do Amigo hoje porque vi um Tatu. Há um grande terreno baldio atrás da minha casa. E depois de muitos anos, o dono resolveu limpar. E lá estava o Tatu tentando fugir para o meu quintal. Mas logo se empirulitou para outro canto.

Aquelas coisas estranhamente boas que acontecem no interior.


Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/sociedade// //Rod Silva