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Um espaço de provocações e tempestades

Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida.

O Pequeno Príncipe, Hannibal Lecter e a Raposa

A vida vai ensinando que, por vezes, belas e pequenas sutilezas engendram em si travas e correntes para no aprisionar - nos cativar. Um olhar holístico para a história dO Pequeno Príncipe pode trazer à tona algumas verdades inconvenientemente assustadoras e, quem sabe, liberadoras.


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"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

Ontem uma amiga postou uma foto, tarde da noite, presa no trabalho com o portão trancado.

Comentei em tom de brincadeira "feliz dia dos namorados". Ela me perguntou, ainda dentro da zoeira, "é assim que comemora?". Parei, pensei e respondi que, para muitos casais, era exatamente assim.

Digo, porque já fui tanto o portão quanto o prisioneiro de alguém.

Ainda ontem, peguei O Pequeno Príncipe para reler. A última leitura que tinha feito dele fora à cerca de 15 anos, sem uma devida bagagem cultural para um olhar mais profundo. E, sem muita surpresa, percebi o quão realmente disfuncional é essa história, principalmente por ser atribuída, não exclusivamente, ao público infantil.

Ele possui algumas analogias profundas, como a visita aos seis planetas, mas seu ápice se dá na conversa com uma raposa no planeta terra, sua sétima viagem depois de abandonar a sua casa.

Lembro que há uns dois anos, em vídeo, o padre Fábio de Melo criticava o livro.

"São aquelas pessoas vampiras emocionais que tem duas presas nos olhos, e para justificar o desequilíbrio emocional, elas grudam os olhos em você e falam: 'tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas'. Eu até acredito que a gente se torna responsável pelo outro, mas não para virar um peso morto na vida do outro. Eu colocaria na capa do livro do Pequeno Príncipe: 'aprecie com moderação’".

O padre ainda insinuava que o Príncipe deveria fazer terapia por conta de tamanha sandice.

O que concordei, mas relendo o texto percebi que a frase não era do Pequeno Príncipe, mas sim da raposa. A mesma que, no começo da conversa, define sua vida como "monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam".

A conversa é recheada de pérolas que vivem renascendo nas redes sociais como " O essencial é invisível aos olhos", "se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz" e outras frases citadas que escondem o contexto ritualístico imposto pela raposa para que isso realmente funcionasse.

É como se fosse uma conversa entre o portão e a(o) prisioneira(o). O que, muitas vezes, na dinâmica da vida, transforma prisioneira(o) em guarda da prisão, que é o que acontece com o Pequeno Príncipe ao reproduzir o que aprendeu com o narrador da história.

Mais do que isso, a imagem que me foi evocada, sem muito esforço, na conversa com a raposa, fora as tantas de Hannibal Lecter e Clarice Starling. A dinâmica da raposa e Hannibal é a mesma. Querem ser cativados ou o outro se torna somente mais uma vítima de seus instintos.

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"Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos a necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo..."

Hannibal, depois de cativado, promete não ir atrás de Clarice, “pois o mundo fica muito mais interessante com você nele”.

Isso dá o que o pensar nas nossas relações. O tipo de expectativa, cobrança e rituais que colocamos sobre nossos relacionamentos, nos tornando príncipes e princesas de algo que não deveria ser, propriamente, governado e dominado, mas mutuamente autodeterminado. Já que a 'magia' é que dois se façam um e não que metades se completem.

No final, nem tanto no final assim, o Pequeno Príncipe se separa da raposa que segue sua vida "monótona" de caça e caçador. Já o menino segue sua vida cativado pela filosofia de sua parceira, a ponto de escolher, acredito eu, um caminho equivocado para casa a fim de reencontrar seu grande amor.

É preciso dizer que, mais do que oferecer um veredicto, essa é só uma livre e pessoal percepção da história. Talvez seja por conta dessas dubiedades e possibilidades que um "livro infantil" ainda esteja tão em voga há mais de 70 anos.

Mas que não seja "o tempo que perdeste com tua rosa" que a faça tão importante a ponto de cair nas garras ou na lábia da raposa.


Rod Silva

Paulista, jornalista, músico e entusiasta da fusão da arte, comunicação e educação como resistência em favor da vida..
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