o adiador

Seu jornal de ontem.

Fabio Fiore

Professor, formado em História e mestre em História Social.

O Deserto dos Tártaros: literatura, propósito, carreira

“O deserto dos tártaros” nos coloca contra a parede, fazendo-nos pensar nas escolhas que fizemos. Você tem sido conformista?


Forte Bastiani.jpg

“O deserto dos Tártaros” é a grande obra do escritor italiano Dino Buzzati. Nascido em Belluno em 16 de outubro de 1906, e falecido em Milão em 28 de janeiro de 1972, Dino Buzzati era formado em direito, mas dedicou-se ao jornalismo. Trabalhou sempre no mesmo jornal, o “Corriere dela Sera”, e viveu sempre na mesma cidade, Milão.

Uma das maiores obras de ficção italiana do século XX, “O deserto dos Tártaros” foi apontado pelo crítico brasileiro Antônio Cândido como um dos mais importantes romances da história da literatura. Contudo, enquanto o mundo reconhecia seu talento, a crítica italiana parecia ignorar o escritor. Uma das razões seria por sua literatura ser aparentemente desengajada, não agradando aos marxistas.

Nas palavras de Otto Maria Carpeaux, “Um dos mais impressionantes romances alegóricos deste tempo”, sendo marcado pelo uso da alegoria e por isso, frequentemente comparado a Franz Kafka (1883-1924). Tem-se por alegoria uma “metáfora distendida”, quando acontecimentos de uma narrativa estão óbvia e continuamente referidos a outra estrutura simultânea de acontecimentos ou ideias. Houve quem dissesse que a alegoria desta obra tratasse da inutilidade do poder, da inexorável passagem do tempo, Dino Buzzati afirma que se trata da condição humana geral e do amesquinhamento cotidiano. Múltiplas interpretações são possíveis. Vejo também o abandono de um futuro possível em troca da esperança de uma vida gloriosa, talvez coisas simples nos bastem, e o passo mais ousado seja daqui na esquina. A esperança é cômoda, um pequeno passo que seja já é maior que um grande plano não realizado.

Nomeado oficial, Giovanni Drogo deixou a cidade numa manhã de setembro para alcançar o forte Bastiani, seu primeiro destino. Era aquele o dia esperado há anos, o começo de sua verdadeira vida…..

O romance conta a história do oficial Giovanni Drogo, o qual é nomeado em seu primeiro posto, para o forte Bastiani, que se ergue solitário às margens do Deserto dos Tártaros. Decepcionado pela localização de pouca importância estratégica, uma fronteira morta, Drogo espera ficar ali poucos meses, aguardando uma transferência. Cada vez com um empecilho, a transferência sempre fica mais distante. Na primeira vez em que Drogo volta para casa, sente-se um estrangeiro na sua cidade. Seus antigos amigos prosperam, têm filhos. Poderia pedir baixa, mas não o faz. Mantém a esperança de se provar em combate e desfrutar do futuro glorioso que tanto espera. Drogo amesquinha-se diante do cotidiano do forte, passa, inclusive, a gostar da rotina e das instalações. E a vida vai passando…

folha envelhecida.jpg No fundo – percebeu Giovanni Drogo – o tempo melhor, a primeira juventude, provavelmente acabara.

Seu companheiro, tenente Angustina é seu oposto. Em uma expedição, Angustina morrera no topo de uma montanha, no cerne da tempestade, conforme ele quis, realmente com muita elegância. E jovem! “Angustina morreu intacto”, pensava Giovanni, “sua imagem, apesar dos anos, se mantivera a de um jovem alto e delicado, de rosto nobre e agradável às mulheres: este, o seu privilégio. ” Enquanto Giovanni Drogo esperava, ano após ano, pela guerra que viria ao forte, Angustina se fez herói em sua própria guerra.

Os anos passam e a idade chega para Drogo, que é abatido por uma doença que lhe deixa acamado. Justamente quando chega a notícia de que o forte Bastiani estava sendo invadido. Agora major, Giovanni tenta se recompor para tomar parte do conflito que esperou por 30 anos, mas é posto de fora dos planos de defesa. O forte vira o centro das atenções do país, regimentos são movidos para lá, mas era tarde para Drogo, que é removido do forte, e morre sozinho num quarto de estalagem, no caminho de volta para sua cidade. Tudo terminava miseravelmente e não restava nada a dizer.

É uma história de desejos, arrependimentos, angústias. A narrativa de Dino Buzzati é propositalmente dura, monótona, o que torna sua história ainda mais memorável. Faz-nos pensar na terrível passagem do tempo, nas escolhas que temos feito. Por causa deste livro abandonei um cargo público, dava-me estabilidade financeira, mas fazia-me sentir na pele de Giovanni Drogo, dentro das paredes do forte Bastiani. Não me arrependo, apesar de alguns infortúnios.

Como Giovanni, nos acostumamos e passamos até a gostar da cômoda rotina. Todos temos um forte Bastiani, qual o seu?

Artigo escrito por mim, publicado originalmente aqui.


Fabio Fiore

Professor, formado em História e mestre em História Social..
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