o cabôco

Escrever é desenhar com letras.

Gabriel Maués

Como Vinícius de Moraes, nunca ando sozinho, apenas em boa companhia: violão, a saudade e a poesia.

A solidão e o violão

Às vezes a solidão é inevitável. E é sempre bom ter um violão por perto nesses momentos.


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Certa vez conversei com a violonista carioca Graça Alan, e nesse papo ela me disse: “o violonista é, antes de tudo, um ser solitário”. Não somente a musicista, mas outros ícones da arte disseram esse fato, mesmo que com outras palavras. Vinícius em “não ando sozinho, apenas em boa companhia: com meu violão, minha canção e minha poesia”. Cecília Meireles quando diz que “quem nasce moreno de vocação gosta de violão”, ainda podendo “gostar de alguém, mas nunca deixa a solidão”. Ou até Tom Jobim quando fala que “prefere viver sozinho ao som do lamento do meu violão”.

Não raramente, portanto, o instrumento é associado a momentos de solitude. O violão é desse jeito mesmo, meio sozinho. Meio ciumento, talvez. É um instrumento que não só funciona bem com muita gente ao redor lhe acompanhando, ou solando em cima dele, como quando está apenas consigo mesmo. Pode até se pensar que por ser um típico nome em ritmos que são lembrados pelos seus conjuntos, como o choro ou samba, até no rock, jazz, blues, tango e afins. Porém, em todos esses, o violão se sente muito bem soando apenas ele. No máximo uma voz no fundo, como em Caetano ou Chico, mas ele ainda gosta quando suas notas se elevam.

Baden e Vinicius.jpgBaden Powell e Vinicius: dois amantes incontestáveis do violão

É normal também que se diga que o piano, por exemplo, é o mais solitário, ou que o sax tenha o som mais melancólico. De fato, cada afirmação pode ser verdadeira até certo ponto. Mas um piano perde no fato de não poder ser levado para qualquer lugar, não podendo, assim, acompanhar a solidão em cantos inesperados. E o sax ainda apresenta certa revolta em se locomover, não querendo se sentir triste em qualquer espaço. O violão não. O violão está disposto aguentar as lágrimas e reproduzir os lamentos à beira de uma piscina, numa roda de amigos, no banco de trás de um carro, numa mesa de bar, num parque ao ar livre ou mesmo à beira da rua de madrugada.

Por mais felizes que possam parecer, os violonistas, quando portam o violão em suas mãos, estão sofrendo por dentro. Uma licença poética seria dizer que esse é o motivo pelas caretas que fazem, mas não é sempre assim. O que acontece é que eles se entristecem, pois o instrumento lhes faz sentir isso. Mesmo quando é uma música mais alegre, os dedos doem um pouco, o colo dói um pouco e coração dói muito. Há no seu som todo o sofrimento existente por trás do artista; por trás de quem tenta fazer arte com as notas muitas vezes sujas, mas cativantes, do violão. E isso se materializa, por exemplo, na música “Tristezas de um violão”, do grande músico Garoto: melodia ágil, acordes “alegres”, ritmo contagiante, mas, no fundo, é uma tristeza, como o nome mesmo diz.

São poucos os momentos na vida em que a solidão é algo bom. Quando escrevemos um texto (carta, poema, conto), pelo simples prazer de escrever, estamos sozinhos e felizes. Quando estamos caminhando na rua com fones de ouvido com o volume até o talo, estamos sozinhos e felizes. Quando estamos deitados na cama, lendo um livro acompanhado de café em uma tarde chuvosa de inverno, estamos sozinhos e felizes.

Violão solidão.jpg

E, não diferente, quando estamos tocando violão, sozinhos em algum lugar, estamos felizes. Felizes e tristes. Assim como quando escrevemos um verso melancólico, ouvimos alguma música triste, ou mesmo quando estamos lendo um livro do Kafka, há felicidade e tristeza. No violão, quando tocado com alma, a tristeza vira felicidade, e a felicidade sobrevive na solidão.

Como um bichinho de estimação, mas que não vai nos deixar um dia. Como um parceiro amoroso, mas que nenhuma discussão pode levar a uma separação. Como um romance bem escrito, mas que não termina. Como um amigo que chamamos para desabafar, mas que não vai sumir por alguns dias por estar de saco cheio de nos ouvir. Como um dia ensolarado, mas que não se despede com o fim do verão. Violão é sinônimo de solidão. Mas solidão bem acompanhada. “Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono!”; novamente Vinicius.

Por isso, não estranhem um violonista preferir a solidão do seu quartinho em frente a alguma janela à saídas para festas bem animadas ou coisa do gênero. A solidão combina bem com ele. Tanto triste quando feliz.


Gabriel Maués

Como Vinícius de Moraes, nunca ando sozinho, apenas em boa companhia: violão, a saudade e a poesia. .
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