o cabôco

Escrever é desenhar com letras.

Gabriel Maués

Como Vinícius de Moraes, nunca ando sozinho, apenas em boa companhia: violão, a saudade e a poesia.

Belas, recatadas e livres

A liberdade de ser como quiser é a mais bela e recatada das escolhas.


Frida Frida.jpgFrida Khalo ao lado de um desenho de seu marido, Diego Rivera

Tomemos como um exemplo prático a digníssima e semideusa Patti Smith. De fato, talvez, pelo menos visualmente, a cantora e escritora esteja longe do que pode se chamar (por alguns veículos de comunicação e pessoas mais conservadoras) de “bela, recatada e do lar”. Patti é uma grandiosa cantora e uma mulher pra frente. De sua voz rasgada e “suja” ressoaram, e ainda ressoam, grandes clássicos do rock como “Because the night” e “Glória”, marcando épocas e corações roqueiros.

Não é uma mulher com dotes tão “recatados” quanto se pode esperar. Um estilo menos preocupado com a própria aparência, sem realmente ligar muito para o que os outros pudessem dizer à respeito dos seus dentes amarelados e cabelos sempre bem desgrenhados, fora o linguajar carregado palavrões e baixarias. Isso, no entanto, não a faz uma mulher pior do que as que portam as características recatadas em questão. E muito menos melhor.

O grande feito que Patti tem em si é o fato de ser livre. Ela, como tantas outras musas do rock, de outros estilos musicais, como Nina Simone no soul, ou nossa Maysa na Bossa Nova, e até mesmo mulheres de outros âmbitos do conhecimento, como Vingínia Woolf na literatura, ou Frida Khalo na pintura, sempre teve a noção do que queria ser e do que não queria. E por isso ela é abençoada, como as outras citadas: por não ser como os homens querem que ela seja, e sim como ela quer ser.

patti-smith-tears-crying-lost-items-fan.jpgPatti Smith: cantora, escritora e bela como ela mesma quer

Não há problema algum em ser uma mulher mais voltada para o lar, dona de casa, mulher de família, e gostar de ler histórias românticas. Afinal, se escolhemos ser algo, então está tudo bem, desde que não prejudique ninguém com tal escolha. Mas o grande problema é querer passar a ideia, como a Revista Veja fez em sua última edição (matéria a qual explodiu memes revoltados nas redes sociais), de que esse é o único tipo de mulher que se deve valorizar; que é o tipo ideal. No fim, pode-se dizer que a escolha delas, se for por motivos de passar uma imagem e não de ser quem realmente querem ser, está prejudicando alguém. Prejudicando a elas mesmas.

Isso, além de rebaixar todas as outras mulheres ao nível de “inferiores”, ainda escancara um aspecto extremamente machista ainda latente na sociedade: a ideia de mulher “pra casar”. Uma mulher que deve saber cozinhar, varrer sempre a casa, estar sempre sorridente e ser simpática, ser mãe coruja, levar biscoitos para os vizinhos novos, não beber nada alcoólico senão aquele vinho finíssimo, e por aí vai. Mas e se há uma mulher que nunca aprendeu a fritar um ovo, que mal sabe segurar uma vassoura ou que não suporta fazer faxina, que não é tão radiante com todo mundo, que não quer ter filhos, e que não gosta muito de biscoitos e adorar uma cerveja bem gelada? Ela não é pra casar?

mulheres_bebendo_muito.pngMulheres bebendo assim seria algo recatado? Claro, por que não?

A lógica morre sempre em que os homens tentam taxar o sexo oposto de acordo com as suas vontades e opiniões, muitas vezes, retrógradas. Os tempos mudam, e nós também mudamos com ele. Principalmente as mulheres. Hoje, mais do que nunca, elas sabem que tem um direito que durante muito tempo lhes foi tirado, mas que agora está sendo escancarado na sociedade de forma precisa: a tal da liberdade.

Liberdade de pensar no que quiser, de se vestir como quiser, de não ser “mocinha” necessariamente, de não ter que se casar, de não ter filhos, de não se manter “pura” (leia-se, erroneamente, “virgem”), de preferir ler Bukowski a Nicholas Sparks; de não ter o corpo sarado, de não se fingir de burra pra aumentar o ego do parceiro, de não ter voz; liberdade de ser igual. Não admitir tais posturas, seja de forma agressiva, como reprimindo por meio de violência, ou de forma subjetiva, rebaixando-as em relação às mais “tradicionais”, como legítimas de uma mulher normal é de tamanha ignorância e crueldade em relação à tudo que se pode chamar de “livre arbítrio”.

Uma lady tem o mesmo valor de uma mulher que não se vê como tal. O valor de alguém está na sua capacidade de se libertar do que lhe oprime sem que isso cause problemas ou mesmo opressão a mais ninguém.


Gabriel Maués

Como Vinícius de Moraes, nunca ando sozinho, apenas em boa companhia: violão, a saudade e a poesia. .
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