o cabôco

Escrever é desenhar com letras.

Gabriel Maués

Como Vinícius de Moraes, nunca ando sozinho, apenas em boa companhia: violão, a saudade e a poesia.

Se um escritor se apaixonar por você

O que aconteceria se um escritor se apaixonasse por você?


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O fato é que se um escritor (a) se apaixonar por você eu lhe desejo sorte. Não por ser algo ruim ou bom, porque isso é relativo sempre. Mas porque, na maior parte das vezes, você vai precisar de sorte com ele (a). Isso porque o escritor(a) é uma pessoa estranha, antes de tudo.

É uma pessoa que está sempre te observando, captando todos os seus detalhes e manias, suas roupas favoritas, seus costumes tipo: jogar o cabelo pro lado quando está feliz ou roer as unhas demais. Ele (a) vai até “jogar na sua cara” o fato de saber de cor as suas manias, chegando ao ponto de adivinhar sua reação de forma bem inusitada e estranha. É alguém que gosta de gravar as coisas que fazem parte de você, porque assim ele (a) verá, quando outras pessoas fizerem o mesmo, você: mesmo que vocês possam estar longe um do outro. É a forma que ele (a) encontra para te ter na mente sempre que a saudade bater ou quando quiser se inspirar.

Você vai perceber que ele (a) pode ser bem esquecido de algumas coisas. Vai acabar se esquecendo das chaves, de levar dinheiro pra sair, dos compromissos que tinha marcado há três semanas e por aí vai. Mas você também vai perceber que ele (a) não vai se esquecer do seu filme favorito, do que você gosta de comer quando está de mal humor, da cor favorita com que você pinta as unhas, dos seus sonhos de viagem e das suas músicas favoritas. Vai citar o seu autor de livros favorito, mesmo que ele (a) sequer tenha lido um livro dele, só porque ele (a) sempre se lembra de ti. Vai ter certeza de que quando você quer ficar só, na verdade, você precisa dele. E ele irá. Vai saber de coisas que você mesmo não saberia, e vai te contar essas coisas sempre nos escritos dele.

Em geral, são seres bem sensíveis, por isso pode esperar declarações melosas e até meio bobas. Acostuma-se a receber poemas pelo celular, textos em pequenos pedaços de papel amassados e até cartas pelo correio (às vezes até com mais de uma página). É capaz de, numa saída de vocês, ele (a) puxar o celular ou um bloquinho de notas e escrever na hora um poema pra você. Ele (a) vai te comparar às coisas mais cafonas, mas bonitas até, que sempre vêm à mente: vai dizer que seus olhos brilham como estrelas, que seu sorriso é um caminho para quem anda perdido e que seu abraço é um poço de calor num inverno que nunca termina. Coisas do gênero. Vai colocar textos dentro dos seus livros, e ainda por cima escrever textos nas páginas dos livros. Vai te enviar várias coisas assim, a ponto de você se irritar ou ficar sem paciência para lê-los. Mas mal você sabe é que ele (a) tem muitos outros guardados e que nunca te manda.

Ele (a) dirá, sempre que possível, que te ama. Mas nem sempre vai ser com um simples “te amo”. Vai acabar inventando outras formas pra isso. Vai fazer isso te colocando nos textos dele, em todos um pouco. Nos contos, um dos personagens vai ter seu costume de bater muitas fotos, outro terá a cor do teu cabelo, um terceiro vai ter teu nome, assim como um quarto vai ter teu sobrenome. Talvez ele coloque teus medos em um, mas também encha outros com teu sorriso, teu jeito de andar e o perfume que ele (a) tanto adora em ti. Vai colocar um personagem usando a roupa com que ele (a) acha que você fica mais bonita (o). Vai esconder coisas que se referem a ti em tudo que ele escrever, porque você já faz parte de tudo isso que ele (a) escreve. Mas, além de tudo isso, ele (a) vai se render também ao simples (e sempre verdadeiro) “eu te amo”.

escritor2.png"Mas, além de tudo isso, ele (a) vai se render também ao simples (e sempre verdadeiro) “eu te amo”. "

Ele (a) nem sempre te dirá o que sente, pois às vezes nem ele (a) mesmo (a) sabe bem explicar. Mas depois, assim que tudo passar, ele (a) vai escrever sobre isso. Vai pôr seus sentimentos ali, nus como um manequim sem roupas ou acessórios, e talvez você, assim, o entenda. Mas mesmo que não saiba dizer o que sente, ele (a) saberá dizer o que você sente. Vai notar, melhor do que a maioria, que o seu tom de voz mudou, que a sua maquiagem não está completa, que o seu olhar está perdido e que o seu suspiro está mais pesado. Vai sentir, mesmo de longe, que o seu coração está triste só pelo jeito que você diz “oi”. Ele (a) vai saber que não está tudo bem, e fará de tudo para que você sorria de novo, por odiar te ver assim e, claro, porque o seu sorriso é a maior inspiração para ele (a).

E é assim que o (a) escrito (a) vai te ver: como inspiração. Como a fonte inesgotável de sentimentos que ele (a) pega, como tinta, e joga no papel, onde vai desenhar tudo o que ele sente e pensa sobre você com as mais diversas palavras e expressões, que às vezes ninguém entende. Nem mesmo você às vezes entenderá. Mas saiba que é real, tudo aquilo.

Mas mesmo que você não se apaixone por ele (a), ou que o amor termine, ele (a) não vai te esquecer. A vida de vocês vai continuar, como sempre continua, mas ele (a) vai sempre guardar um parágrafo carinhoso no texto dentro dele sobre você. É como uma homenagem dele a tudo que você representou: toda a inspiração, todas as novidades e todas as palavras não ditas pela voz, mas pelas letras. Sempre terá um pedaço de você dentro dele.

escritor4.jpgMesmo que você não se apaixone por ele (a) ou o que o amor acabe, sempre haverá um pedaço de você dentro dele (a)

O escritor é um mentiroso, sempre. Não há exceções. Ele (a) mentirá sobre tudo e sobre todos, até quando ele puder, e até mesmo quando não puder. Mas se um (a) escritor (a) se apaixonar de verdade por você, ele nunca vai mentir uma palavra sequer sobre você. Mesmo que ele tente, ele não vai conseguir.


Gabriel Maués

Como Vinícius de Moraes, nunca ando sozinho, apenas em boa companhia: violão, a saudade e a poesia. .
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