o cabôco

Escrever é desenhar com letras.

Gabriel Maués

Como Vinícius de Moraes, nunca ando sozinho, apenas em boa companhia: violão, a saudade e a poesia.

Como você lida consigo mesmo?


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Poucas coisas afetam a todo mundo de forma tão clara. A pandemia atual é uma delas.

Há mais de um ano estamos vivendo como nunca antes, e isso assusta. De repente, a vida virou de uma maneira em que nem o mais pessimista poderia imaginar (eu acho). Mas não quero falar disso, até porque estamos todos meio cansados de tudo isso. Todos nós. Por isso, queria propor que a gente fizesse um breve exercício de pensamento e reflexão:

Quem nós somos desde o ano passado?

Eu não acredito, já tem alguns bons e outros nem tão bons anos, que a gente seja o mesmo de ontem. Talvez nem o mesmo de alguns minutos atrás, se formos pensar um pouco. Nós mudamos tudo: quantidade de cabelo na cabeça, olheiras, roupas, cidade, emprego, amor, saudade e por aí vai. A gente muda até quando não queremos, e isso, como eu mesmo já escrevi tantas vezes, não precisa ser algo ruim, necessariamente. É verdade que mudar assusta, mas, penso, ser o mesmo assusta mais ainda. Repetir os passos, erros e acertos não nos leva a nada, portanto não reclame de mudar, e sim de ser o mesmo.

Tendo isso em vista, pode ser que eu soa repetitivo, já que esse já foi um tema parcialmente debatido nos meus escritos. Mas quero ressaltar a importância de nos olharmos um pouco mais nesse momento tão ímpar. Reveja uma foto qualquer do início de 2020, e compare com hoje em dia. Pode ser assustador ou revelador, no mínimo.

Antes disso, a gente era um, mas agora somos muito mais singulares. Passar tanto tempo com medo, preso, passando fome, desempregados e muitas vezes solitários demais nos faz mal. Sem hipocrisias: a pandemia do Covid-19 não é algo bom; não é a natureza fazendo à limpa ou a seleção natural. Ou pode ser que seja, mas isso soa como algo bom, ou neutro até. E nada disso que passamos é minimente neutro. A maior parte de nós gostaria de estar livre para sair na rua o quanto antes, seja pra tomar ar, abraçar alguém querido ou só não precisar ver as mesmas paredes de sempre dentro de casa.

Mas a gente muda, como já falei. Mudamos nossa forma de conviver com aquilo que, fatalmente, não temos como nos livrar tão cedo: nós mesmos. A gente, antes, nem devia se dar tanta conta do mal que fazíamos aos nossos corpos, física e espiritualmente (para quem acredita). Agora, pagamos, em parte, o preço; conviver com nossos dilemas diários é um desafio pra lá de complicado, e muitas vezes pode nos deixar loucos. O trabalho, academia, escola, faculdade, saída com amigos ou parceiros amorosos nos fazem esquecer dos problemas.

Não é pra isso soar escapista: você não está com seu companheiro ou companheira pra tapar algum buraco ou aliviar o estresse diário. Ao menos, não deveria. O que quero dizer é que quando somos obrigados a conviver, principalmente, com a gente, e só, não temos pra onde correr. Não podemos reclamar da gente pra nossa mãe, porque somos nós mesmos o inimigo. Não dá pra se queixar pro amigo ao lado que nos odiamos, pois a quem ele atacaria ou ajudaria? A gente, quando é obrigado a lidar conosco, pira. E isso é normal, acreditem.

O que penso disso? Penso que a gente acaba se odiando tanto que nos esquecemos, nos negamos e negligenciamos. Preferimos outrem à ficar sozinhos com nós mesmos. Porque nossos problemas sempre serão maiores, pelo simples motivo de que ninguém vai sentir nossa dor, só a gente. Não vamos nunca entender a dor de uma pessoa ao lado, nem que seja nosso filho, pois só ele sabe o quanto dói. Seja lá o que for.

E quando estamos sozinhos pra lidar com essa dor do tamanho do universo? O que fazer?

Difícil de dar uma resposta, é o que eu penso. Mas ainda assim, vale a pena refletir sobre. Tentar entender quem somos, nosso lugar no isolamento social e em como chegamos a esse estado de dor e lamentação que constantemente temos de lidar. Não é fácil se conhecer melhor, muito menos ser obrigado a isso. Mas é uma obrigação nossa lutar contra isso, contra a falta de vontade de olhar no espelho e ver bem além dos olhos, nariz e boca, do resto do corpo. Você não pode fugir de si mesmo, e isso jamais deveria ser uma dor, e apenas uma condição natural, como respirar e comer. Portanto, vá até você, e não tente se afastar.

Se conheça, antes que você acabe se perdendo em si mesmo. Aí, já pode ser meio tarde de mais.

Boa sorte.

Abraços.


Gabriel Maués

Como Vinícius de Moraes, nunca ando sozinho, apenas em boa companhia: violão, a saudade e a poesia. .
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