o cafofo

Contos, crônicas, críticas e etc e tal

Vinicius Bertollini

Publicitário e paulistano. Ouvia das professoras na escola que escrevia bem e resolveu acreditar nisso

Sobre o álcool, a solidão e outras drogas

O diário do recomeço de Renato Russo, o homem que se afogou no alcoolismo e renasceu ao chegar no fundo do poço.


11010532_10152882802666408_3982688918014201327_n.png

Em Vinte e Nove, faixa que abre o disco O Descobrimento do Brasil, o sexto álbum de estúdio da Legião Urbana, de 1993, Renato Russo canta que perdeu vinte em vinte e nove amizades por conta de uma pedra em suas mãos, que passou vinte e nove dias num navio e vinte e nove meses na prisão, e que aos vinte e nove estava decidido a começar a viver.

Poderia ser apenas poesia se não fosse também extremamente biográfico: Renato tinha vinte e nove anos quando se internou em uma clínica de reabilitação durante vinte e nove dias. Após quase morrer de overdose diversas vezes, Renato finalmente aceitou sua doença como adicto e se tornou paciente da Vila Serena, uma clínica para dependentes químicos no Rio de Janeiro.

Seguindo religiosamente o programa dos 12 passos dos Alcoólicos Anônimos, os pacientes escreviam o dia a dia na clínica como parte do tratamento e relembravam os fatos de suas vidas que contribuíram para que eles tivessem chegado naquela situação, como uma espécie de diário, num mergulho profundo e sincero na alma. Um deles era Renato. Não o Russo, não o líder da banda de rock brasileira mais influente e bem sucedida da história do Brasil, não o compositor, não o artista, muito menos o cantor. Lá estava Renato Manfredini Júnior, um homem como qualquer outro, infiltrado entre médicos, advogados, empresários, aposentados e donas de casa, cada um com seus dramas, suas histórias, seus porquês. Mais um entre tantos, sem estrelismo nem mordomias.

renato-russo-cantor-compositor-e-vocalista-do-grupo-legiao-urbana-1370608175637_564x430.jpg

Seus relatos viraram Só por hoje para sempre e foram publicados recentemente pela Companhia das Letras. Era desejo do próprio Renato que sua experiência na clínica de reabilitação se transformasse em livro, com o intuito de mostrar a sua história e, assim, ajudar outros que estivessem sofrendo com o mesmo drama. Sua morte prematura, aos 36 anos, em 1996, o impediu de ver o seu desejo se tornar realidade. Nada que sua família não pudesse resolver com alguns anos de atraso.

A obra é uma conversa de Renato com ele mesmo. Internado, o autor passa o tempo todo se questionando, tentando encontrar uma resposta que esclareça como ele conseguiu se colocar naquela situação, nem que para isso tivesse que pôr no papel os seus segredos mais indecorosos. A princípio, isso não seria um problema para um cara que fez da própria exposição sentimental o seu ganha-pão; mas em Só por hoje e para sempre, Renato conta passagens da sua vida que, provavelmente, ninguém teria coragem de revelar, seja por vergonha, seja por medo ou seja pelos dois juntos. Por causa da bebida e das drogas, Renato quase morreu de overdose mais de três vezes, negligenciou a saúde do próprio filho - o que quase lhe custou a vida, destratou empregados, apanhou de seguranças, tornou-se agressivo, deu vexames em público, teve o seu trabalho e desempenho nos palcos extremamente comprometidos, contraiu hepatite, emagreceu consideravelmente e se autoflagelou, além de outros inúmeros casos que divagavam sempre entre problemas e polêmicas.

12285715.jpeg

O livro em si, como obra literária, é raso - o que é compreensivo, visto que ele é apenas um diário que foi publicado. Entretanto, o que o torna bastante interessante não são só as passagens biográficas do backstage da Legião Urbana e o sofrimento de seu líder, e sim a reflexão de como uma pessoa tão culta, esclarecida e bem sucedida, assim como milhões de outros pacientes internados nas Vilas Serenas espalhadas pelo mundo, se permitiu chegar a essa situação. A resposta, por mais clichê que seja - e, muitas vezes, um clichê é a melhor forma de se explicar um ponto de vista - se resume sempre no tão falado refúgio. O adicto encontra nele um abrigo acolhedor, que o protege e que ilumina a sua escuridão interna, retirando aquela malha pesada de impotência que cobre o seu corpo e o impede de se erguer diante dos problemas que a vida impõe a todos nós. A questão é que, para um viciado, uma dose de problema muitas vezes resulta em outras cinco de álcool.

renato-russo_f_002.jpg

Isso explica um pouco a areia movediça que o dependente se encontra na luta contra a sua doença. No caso de Renato, ao tentar combater seus demônios, mergulhava fundo no álcool, nas drogas e nos tranquilizantes. O desejo de se ver livre, em paz e bem consigo mesmo desenvolveu nele um ciclo vicioso para se distanciar de seus tormentos, sempre sem fim; a liberdade nunca vinha, a paz nunca chegava. No começo, aliava seu comportamento ao clássico estilo de vida rock and roll e desprezava todo e qualquer suporte da família e dos amigos. A prepotência do viciado cria a ilusão de que seus hábitos são passageiros, podendo ser evitados a qualquer momento. Mas não existe livre arbítrio a este que não aceita a sua condição, e a tão prometida última vez acaba sendo sempre a penúltima. Os relacionamentos fracassados, a sede por aceitação, a falta de assertividade, a baixa auto-estima e o não conformismo com as mazelas e as injustiças do mundo fizeram o autor encontrar na bebida uma fonte inesgotável para se desligar das adversidades. Em vez de erguer a cabeça, Renato ergueu o copo. E em vez de enfrentá-los, se escondeu atrás de garrafas, pós, seringas e tarjas-preta.

11425122_10152852646986408_7234135992145645054_n-1.png

Claro que o universo do dependente químico e do alcoólatra é muito particular, assim como suas motivações e seus fantasmas, mas uma coisa que fica clara é que Renato, assim como todos os seus colegas, sofre com a culpa e busca, acima de tudo, a redenção, a reinserção social e a vida que quase jogou fora. Muito mais intenso e arrebatador do que se apoiar nas drogas foi assumir a necessidade por ajuda e decidir que se erguer para dar o primeiro passo em busca de recuperação era o verdadeiro caminho para voltar a viver em paz consigo mesmo.

Só por hoje e para sempre é um relato honesto de um paciente fragilizado, mas decidido a levar o lema dos Alcoólicos Anônimos - só por hoje - ao pé da letra. E, acima de tudo, com a coragem de quem está determinado a viver um dia de cada vez. Até o fim.


Vinicius Bertollini

Publicitário e paulistano. Ouvia das professoras na escola que escrevia bem e resolveu acreditar nisso.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Vinicius Bertollini