o cafofo

Contos, crônicas, críticas e etc e tal

Vinicius Bertollini

Publicitário e paulistano. Ouvia das professoras na escola que escrevia bem e resolveu acreditar nisso

The Killing - além de um crime

A sombria série da Netflix aborda as diferentes faces da violência e as consequências avassaladoras da morte em apenas quatro temporadas viciantes.


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Passei por The Killing várias vezes enquanto zapeava o Netflix em busca de alguma coisa pra assistir. O rosto da Meirelle Enos lá, atrás de um vidro molhado num misto de gotas de chuva e de sangue escorrendo, sempre me olhando. Li a sinopse na primeira vez e achei interessante: os detetives Sarah Linden (a própria Meirelle) e Stephen Holder (Joel Kinnaman, o novo Robocop) buscam o assassino de Rosie Larsen (Katie Findlay) e acabam sendo profundamente afetados pelos crimes que investigam. As palavras “sombria”, “aclamada”, “série policial” também me chamaram atenção. Pensei, legal, mas hoje não.

O hoje demorou pra chegar. Cruzei pelo caminho de The Killing em diversas outras oportunidades, mas nunca a assisti. Não sei dizer o porquê. Não fazia sentido, pois procurava alguma história para acompanhar já fazia certo tempo (abandonei Better Call Saul nem me lembro muito bem o motivo. Até embarquei em Modern Family depois que terminei The Office - ou, pelo menos, o que havia disponível dele no Netflix - mas precisava de uma série de drama pra seguir, do tipo que eu chamo de série séria. Sempre intercalo: uma comédia pra distrair, uma tensa pra sofrer). Pensei em Mad Men, mas tenho preguiça. Então, em uma bela noite, prestes a fechar o Netflix, lembrei daquele olhar frio através do vidro ensanguentado, meio que me medindo e questionando o que eu estou fazendo sentado ali naquele sofá, e falei: é hoje.

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Quando encerrei a quarta e última temporada, pouco tempo depois de dar uma chance ao episódio piloto, fiquei me perguntando o que havia se passado na minha cabeça para eu ter demorado tanto para assistir a uma das séries que mais me cativou nos últimos tempos. Talvez pela minha falta de expectativa e despretensão inicial, confesso. Mas o fato é que The Killing foi uma excelente surpresa, um verdadeiro achado. E dos melhores!

The Killing é baseada em uma série dinamarquesa de sucesso chamada Forbrydelsen. A AMC resolveu fazer uma versão americana e gravou as duas primeiras temporadas (na realidade uma só, que é dividida em duas partes). A terceira foi produzida em parceria com a Netflix, enquanto a quarta e última foi bancada apenas pelo servidor de streaming.

A série é diferente daquilo que estamos acostumados. É lenta (mas definitivamente longe de ser monótona), instigante, obscura e muito profunda. Mergulha no psicológico dos personagens, nos dramas individuais e, principalmente, em como eles interferem no desenrolar da trama. Fala sobre laços, família, a morte, as consequências dos nossos atos. The Killing é sobre a solidão, incrivelmente bem fotografada e ambientada em uma Seattle fria, chuvosa, coberta por filtros opressivos e vivida por personagens misteriosos e fascinantes, daqueles que você não esquece. The Killing é sutil. The Killing é para se apreciar.

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Uma das melhores coisas da série é seu clima sinistro. The Killing é o tipo de obra que mostra, mas não diz. Que fala nas entrelinhas, no olhar dos atores, nos detalhes. Que é violenta, que assusta e que te deixa tenso, mas que não precisa exagerar no sangue para isso. A tensão está na trilha sonora, na ambientação e no fantástico e impecável trabalho dos atores, principalmente da dupla Meirelle (que não à toa foi indicada ao Globo de Ouro e a outros diversos prêmios) e Joel.

Diferentemente de outros sucessos policiais da TV (exceção feita talvez a True Detective), The Killing não se apega somente ao caso a ser solucionado. O charme do seriado é que os assassinatos em si acabam ficando um pouco para escanteio para dar lugar aos dramas dos personagens que, automaticamente, servem de base para a resolução dos crimes. Um exemplo é a premissa da própria primeira temporada: o quem matou Rosie? é o grande motor da história, mas não a move sozinho. A condução está na personalidade introspectiva e atormentada de Sarah, nos trejeitos e na instabilidade de Holder, no sofrimento da família Larsen, em todas as consequências que a morte e a violência trazem ao ser humano após atingi-lo em cheio e na destruição causada pela dor, seja ela física, psicológica ou sentimental.

Apesar de toda a qualidade técnica e dos incontáveis pontos positivo, The Killing tem um defeito pontual - o grande responsável pela queda de audiência do seriado nos EUA, fato que levou a AMC a cancelá-lo após o término da segunda temporada. A produtora Veena Sud (a mesma que criou a versão original, a dinamarquesa) caiu na armadilha gananciosa das grandes emissoras: condensar uma história, que já é sólida, em duas partes, fazendo uma trama que deveria durar apenas uma temporada se estender por mais outra. O resultado foi uma infinidade de pistas e pontos falsos, e a criação de algumas histórias paralelas que nada tinham a ver com a produção original, o que acabou causando, em parte do público, certa impaciência - não foi o meu caso. Mas entendo a reação.

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Se a primeira temporada é arrebatadora, a segunda é um pouco inferior - apesar do final alucinante e do desfecho imprevisível. Já na terceira e na quarta, Veena Sud se redime e, junto com a Netflix (que viu em The Killing um grande potencial para aquele tipo de série que você assisti em uma tacada só) e com Nic Pizzolato (criador do sensacional True Detective), presenteia o público com uma história ainda mais rica, inteligente, angustiante e repleta de momentos que fazem seu coração e seus dentes baterem mais forte.

The Killing vale a pena ser assistida, principalmente se você gosta de se envolver em uma história e está disposto a trocar algumas horas de sono para ser testemunha das investigações de Sarah e Holder. Mais que um whodunit, The Killing é um thriller psicológico viciante para se apreciar sem uma gota sequer de moderação.


Vinicius Bertollini

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