o ciclorama

Embriague-se de olhares, de histórias, de cultura.

Isabella Senise

Eu poderia me resumir em formações, sonhos e experiências, mas optei por expressar o que penso sobre a vida através de um único e certeiro trecho de Charles Baudelaire:

"É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se."

A Era do Rádio: o filme de Woody Allen que se torna nostálgico até mesmo para quem não viveu a época

Para quem não viveu nas décadas de 30 e 40, imaginar o rádio como principal meio de comunicação pode não ser exatamente uma tarefa muito fácil. No Brasil, enquanto Getúlio Vargas discursava na fortíssima Rádio Nacional, as Cantoras do Rádio embalavam sonhos e acordavam os ouvintes. Nos Estados Unidos, o poder do rádio era tão grande, que o memorável episódio de Guerra dos Mundos, simulando invasão de extraterrestres à Terra, causou até suicídios de ouvintes que acreditaram na história.
O filme "A Era do Rádio", dirigido por Woody Allen e lançado em 1987, envolve o espectador com histórias do rádio que se tornam nostálgicas até mesmo para quem não viveu a época.


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Em pleno 2016, quando mal sabemos viver sem celulares por perto, é difícil imaginar como era a vida na época em que o maior meio de comunicação era o rádio. Apesar de este ainda estar presente em algumas situações rotineiras, não exerce a mesma influência que possuía em tempos em que nem mesmo a televisão existia (ou quando era financeiramente inacessível para muitos). Rádio era artigo de luxo. Dá para imaginar? Pagava-se caro por ele, mas muitas famílias davam seus jeitos para comprar ao menos um, que ficasse no meio da sala e pudesse ser ouvido por todos.

Sintonizar o rádio era, às veze, uma tarefa e tanto, e havia certos programas que ninguém perdia. No Brasil, as famosas “Cantoras do Rádio”, por exemplo, “embalaram os sonhos” e “acordaram” muitos brasileiros. As radionovelas também tinham altas audiências com suas vozes famosas e efeitos sonoros improvisados. Politicamente, o rádio também teve grande representatividade. A fortíssima Rádio Nacional surgiu durante o governo de Getúlio Vargas, em 1936, levando às massas seus discursos populistas. A chegada do noticiário Repórter Esso, alcançou uma audiência que atingia até mesmo lugares mais periféricos do Brasil inteiro. Noticiava, entre outras coisas, a Segunda Guerra Mundial e divulgava o famoso “american way of life”.

O filme A Era do Rádio, lançado em 1987 e dirigido por Woody Allen, pode não estar exatamente entre os mais famosos do diretor, porém é dono de uma riqueza indiscutível.

Narrado pelo próprio Woody Allen, o filme descreve a vida americana em plenas décadas de 30 e 40, através das recordações do cotidiano do pequeno Joe (Seth Green), menino que vive com sua grande família judia em uma região periférica de Nova York. Trazendo alguns elementos claramente semelhantes à própria infância de Woody Allen (o que não é de se admirar quando estamos falando sobre ele), as histórias permeiam a Segunda Guerra Mundial. O menino, apaixonado por rádio, observava o universo que o cercava através de momentos que se tornaram memoráveis, justamente, por conta de personalidades, artistas e jornalistas do rádio. Ora meio de comunicação em massa, ora de entretenimento, chegou a contar com programas de culinária, música, ventríloquos e jornais, além de ser sustentado por enormes talentos como Carmem Miranda.

As lembranças de Joe se misturam com fantasias que podem ter sido despertadas pelo poder do rádio suscitar a imaginação (já que o ouvinte deve visualizar suas próprias imagens mentais enquanto o escuta).

Woody Allen aborda em seu filme, também, o famoso episódio em que o programa Mercury Theater on the Air, de Orson Welles, na CBS (Columbia Broadcasting System), transmitiu a adaptação do romance de ficção científica Guerra dos Mundos (escrito em 1898 pelo inglês Herbert George Wells ). O programa foi ao ar no dia 30 de outubro de 1938, em Indiana, onde um grupo de atores interpretou o romance utilizando efeitos sonoros que simulavam uma invasão de centenas de marcianos à cidade de Grover's Mill, no estado de Nova Jersey. Orson Welles atualizou a história para o presente e alterou o formato para o de um noticiário e, apesar de no início da apresentação, ter sido anunciado que se tratava de uma adaptação fictícia, muitos ouvintes estavam, neste momento, se entretendo com outro programa, campeão de audiência, o “Chasen and Sabor Hour”. Quando optaram por mudar de estação, ouviram o tal ataque alienígena sem saber que se tratava de mera ficção. A “brincadeira” rendeu uma situação de extremo pânico e até o suicídio de alguns ouvintes. O acontecimento foi um dos maiores marcos da era do rádio e uma das maiores provas de sua enorme influência na época.

O filme explora os bastidores do que, para época, era um novo e indispensável meio de comunicação. Trabalhar no rádio era estar em um ambiente de glamour, festas, fama e, para muitas pessoas, um sonho.É o caso da personagem Sally, uma vendedora de cigarros que faz tudo o que pode para realizar seu sonho como cantora de rádio. O grande porém, é que sua voz estridente faz com que ela deva procurar aulas de dicção para atingir seu objetivo. Para trabalhar no rádio, afinal, é importante ter uma bela dicção, o que permitia (e até hoje permite), que artistas não tão belos encantem a muitos ouvintes com suas vozes potentes e carismáticas.

Como qualquer roteiro de Woody Allen, em A Era do Rádio, o espectador se deixa levar pela narrativa leve que se torna nostálgica até mesmo para quem não viveu a época… O universo do rádio com seus programas musicais, seu glamour, suas vozes atraentes e seu poder de reunir famílias ao redor do aparelho, fascina e encanta a qualquer um. O tom nostálgico e ao mesmo tempo cômico permite que o espectador “mergulhe de cabeça” nesse universo, nessa época, entrando na história de Joe, sua família, seus vizinhos e seus segredos, todos embalados pelo som da inesquecível Era do Rádio.


Isabella Senise

Eu poderia me resumir em formações, sonhos e experiências, mas optei por expressar o que penso sobre a vida através de um único e certeiro trecho de Charles Baudelaire: "É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.".
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