o pé da questão

Sorria, aqui você é livre!

Fabiano Carlos

Alagoano, acadêmico de Jornalismo pela UNIT/AL, DJ, Potterhead, cinéfilo e futuro autor de best-sellers.

Esta é sua vida e ela está acabando,um minuto por vez

Vivemos em um mundo que não cabe o presente e as sensações são substituídas por impulsos elétricos de um mundo on-line. Nossa zona de conforto está bem alicerçada, cercada e passa bem, obrigado. Bem-vindo a era da procrastinação de sensações.


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Obs: Se você ainda não viu as obras nas quais me refiro no texto a sua compreensão pode ser prejudicada.

O título do texto foi tirado do livro Clube da Luta de Chuck Palahniuk; embora o filme dirigido por David Fincher seja mais conhecido que a obra. Clube da Luta é uma crítica ao estilo de vida consumista, acelerado e fútil da nossa atual sociedade. Sua filosofia, curiosamente, é bem similar a outro filme de grande sucesso: Matrix dos Irmãos Wachowski. Ambos os filmes vão desconstruindo certezas e disseminando questionamentos, colocando o dedo na ferida que muitos de nós temos. Um deles é: o que estamos fazendo da nossa vida?

PROCRASTINANDO SENSAÇÕES

Atualmente, sentir o presente passa ser secundário, estamos muito apressados com a vida e as preocupações diárias. São tantas metas, cobranças e responsabilidades que muitas vezes perdemos a noção do que realmente fazemos. Sei que você, assim como eu, está cansado de ler textos motivacionais e as listas de "dez clichês para a felicidade" – tão comuns por aí. Definitivamente, não estou fazendo isso! Afinal, a felicidade (ou algo que chegue o mais perto disso) não se encontra em fórmulas prontas. Quero instigar cada um fazendo uma pergunta (concentre-se!): você sente o que faz?

Quero que me faça um favor. Quero que me dê um soco o mais forte que conseguir.¹

Estamos no presente, mas não o sentimos, pensamos e vivemos sob a projeção do futuro. Há sempre algo lá na frente a ser conquistado, um objeto, um sonho, um prazer, um desejo que não se extingue quando saciado. Acostumamo-nos a fazer uma série de coisas através de uma tela - conhecemos pessoas, compramos coisas, trabalhamos, estudamos, e até “fazemos” sexo; tudo com a praticidade de não sair de casa. É mais seguro e mais cômodo não sair da nossa zona de conforto que está bem alicerçada, cercada e passa bem, obrigado.

Um aparelhinho com inúmeros aplicativos nos resume como se fosse a nossa essência, experimenta sair de casa sem ele - dá uma sensação de vazio, um desconforto que beira à solidão; é como se perdêssemos a conexão com o mundo, mas na verdade, apenas esquecemos que tal conexão é a nossa própria existência. Todo mundo está ali dentro, é tudo tão próximo que às vezes somos mais vivos no mundo virtual que no real. E isso não é sentir. A realidade é que desaprendemos a viver de verdade.

BEM-VINDO À MATRIX

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Assim como todo mundo, você nasceu em um cativeiro, preso em uma cela que você não pode sentir, provar ou tocar. Uma prisão para sua mente.²

A primeira coisa que costumava fazer quando acordava era checar meu celular, só deste modo eu sentia que havia acordado e que o dia iria realmente começar. Não era quando abria os olhos e percebia o primeiro pensamento ser formado ou muito menos com a luz que se expandia diante de mim. É estranho saber que preciso me conectar a um aparelho para existir. Quando conecto meu wi-fi eu estou na Matrix!

Um belo dia quando conversava com um amigo pelo Facebook, me dei conta que nunca tinha falado com ele pessoalmente, nunca houve um papo olho no olho. Eu sabia que morávamos poucos quilômetros de distância, entretanto, não sabia o nome da sua rua ou até mesmo qual era o seu bairro. O curioso é que ambos confidenciamos um para outro segredos íntimos, pensamentos que costumávamos esconder dos mais próximos (fisicamente). Ali percebi que nada daquilo fazia sentido, eu precisava deixar as teclas e falar, ver a expressão corporal, o entusiasmo, o brilho nos olhos. Era necessário tornar tudo aquilo tangível. Sair do virtual para o real.

O virtual nos torna frívolos, e a sensação de conectividade e de união é enganosa. Estamos mais próximos do mundo e mais longe de nós mesmos. Exclua suas redes sociais e espere uma semana. Veja quais dos seus amigos vão tirar um tempo para ligar ou convidar para sair. Com esse simples teste descobrirá o que é concreto ou não na vida. O verdadeiro é o sentir e podemos usar a tecnologia ao nosso favor, o que de maneira nenhuma podemos esquecer é a diferença entre a realidade e a virtualidade.

SENTINDO A LIBERDADE

Pergunte a si mesmo quantos desejos existem aí dentro dessa cabeça. Quantos você realizou, realiza ou vivencia. Quantos não estão presos pelos paradigmas da sociedade? Quantos não estão esperando a hora certa, quando na verdade, apenas se acovarda sobre essa falsa convicção de controle. Procrastinação? Ah, todo mundo faz isso. Não falo de metas, falo de sensações, falo de finalmente liberta-se das ideias impostas sem seu consentimento que lhe assegura de não viver.

Experimente sair para um café em vez de deitar e falar pelo whatsapp. Encontre aquelas pessoas nas quais você conversa um bom tempo, mas tem pouca oportunidade de ver pessoalmente. Desconecte-se uns minutos e observe os seres ao seu redor, ou faça algo que sempre quis fazer, ou simplesmente feche os olhos e sinta cada melodia daquela música que fez sua adolescência. Sinta mais, vá para a vida.

NÃO FALE SOBRE O CLUBE DA LUTA, SAIA DA MATRIX.

Não só nos perdemos no mundo virtual como vivemos no futuro. A ansiedade é nossa maior companheira nos dias atuais. Talvez por isso não tenhamos tempos para vivenciar a realidade, estamos muito ocupados projetando nosso futuro. O fato é que vivemos a olhar para o que um dia foi, com a ilusão que aprendemos a ser, sem ter, na verdade, ideia do que será. Enquanto isso nossa vida vai passando, pois desde o dia que nascemos caminhamos para morte.

Sair da zona de conforto é como levar um soco, de início é assustador, machuca, é confuso, depois adormece e sara. É autodestruição. Precisamos romper com isso de colocar cercas ao redor do que queremos apenas para aguentar mais um dia, enganar-se mais uma vez. Não é fácil, é uma luta, é como entrar em uma roda de desconhecidos e pedir para apanhar e bater, é dar a cara a tapa. É libertador! Esse texto é sobre o presente, é sobre deixar as ilusões impostas pelas tecnologias. É sobre acordar, tirar o plug que está atrás da nossa cabeça e ir para algum lugar de um bar e lutar.

Naquela época minha vida parecia completa demais, e talvez tenhamos que quebrar tudo para construir algo melhor em nós mesmos.³

REFERÊNCIAS:

¹(PALAHNIUK, Chuck. Clube da Luta. São Paulo: Leya, 2012.)

²(MATRIX. Direção: irmãos Wachowski, Produção: Joel Silver. Estados Unidos: Warner Bros, 1999.)

³PALAHNIUK, Chuck. Clube da Luta. São Paulo: Leya, 2012.)


Fabiano Carlos

Alagoano, acadêmico de Jornalismo pela UNIT/AL, DJ, Potterhead, cinéfilo e futuro autor de best-sellers. .
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