Llewyn Davis e o Fracasso

Em filme melancólico, os irmãos Cohen dissertam sobre o fracasso.


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Ouvimos aplausos e vemos um músico sentado apenas com um violão, há uma luz sobre seu rosto, ele canta sobre um palco, uma música sobre suas desventuras pelo mundo. A câmera foca seu rosto no que já é um enunciamento do filme que vem pela frente. Assistimos a “Inside Llewyn Davis – A Balada de um Homem Comum, dos irmãos Cohen. Esses, por sua vez, são famosos por suas comédias de humor negro e subversões de gêneros hollydianos.

Para citar os mais recentes temos o western passado na década de 80 “Onde os Fracos Não tem vez” e a comédia de espionagem “Queime depois de ler” tendo depois dele, lançado o enigmático “Um Homem Sério” outro filme deveras interessante, mas que talvez sirva para um futuro texto.

Não se pode afirmar que exista alguma subversão em Inside, pois ele parece ser ás vezes um musical, um musical deprimente e se alguém enxergá-lo como um musical, talvez esteja aí sua subversão.

Na minha visão, porém, o filme não se encaixa apenas nesse gênero, é um filme dramático com pitadas de humor negro que ora parece nos querer indicar que Llewyn é culpado por seu fracasso e em outras que se trata de uma questão que simplesmente foge de seu controle.

Não devemos é claro, encarar Inside como uma obra de teor realista que visa uma cartase de autodescoberta da personagem. Não se trata de um drama moralista, finalista ou ético onde Llewyn deve se aprimorar como ser humano para alcançar aquilo que tanta deseja. Não, as experiências vividas não servem como aprendizado, tudo simplesmente dá errado para Llewyn, pois ás vezes ele toma as decisões certas em horas erradas.

No entanto o fascínio desse filme, justamente reside nesse olhar irônico sobre sua personagem, que tenta a todo custo sair da normalidade de sua situação, ambicionando ser um artista reconhecido no cenário folk da década de 60.

Llewyn busca intensamente seu objetivo e se considera um artista da mais alta qualidade, porém com seu insucesso recorrente, ele não tem lugar para dormir e acaba vivendo de sofá em sofá, provisoriamente.

Várias piadas acontecem nesses momentos onde o protagonista tem que lidar com situações estapafúrdias devido a sua precária condição financeira. Como a caça ao gato, que também nos mostra a arrogância de Liewyn em diversos momentos da trama.

Porém como já foi dito acima, o filme flerta com explicações fatalistas, mas se responde algo, fica no niilismo, já que Llewyn não tem outro objetivo, sua vida é sua arte.

Mas o que dizer de um filme que fala sobre o fracasso num momento histórico como esse, quando escondemos de nós mesmos o tempo todo que essa possibilidade faz parte da vida?

De fato, os Cohen gostam de falar de gente comum, como nos supracitados filmes e em todas essas ocasiões, há uma visão irônica e ácida sobre nossa ignorância e confusão, ao mesmo tempo que há uma profunda humanização desses personagens.

Parece então, que os Cohen querem ressaltar o aspecto patético da condição humana, isto é, de nossas carências no percurso de nossas trajetórias.

Não sei se é acertado falar que a principal preocupação dos Cohen seja o problema da significação, mas seus personagens sempre tem trajetórias repletas de confusões porque almejavam algo em certo altura da projeção.

O fracasso ronda essa personagem que quer muito alguma coisa e sofre por causa disso, mas no final das contas, há um sentimento de inutilidade do esforço de Liewyn.

A indústria, assim como as pessoas, não estão preocupadas com as histórias cantadas de Liewyn. Em sua interpretação da canção “Death of Queen Jane” frente a frente a um dono de estúdio, Llewyn mostra uma sensibilidade diferente nessa canção tétrica e melancólica. Mas melancolia não vende e Llewyn fracassa outra vez.

Há então uma perspectiva irônica e niilista sobre a indústria fonográfica e o subsequente gosto musical do público, afinal, todos os músicos os quais Llewyn despreza, como o seu conhecido Jim, interpretado por Justin Timberlake, cantam músicas de fácil digestão, repetitivas e piegas, porém, amadas pelo público.

Inclusive o rapaz do exército o qual Llewyn considera simplório é elogiado pelo empresário, “Ele se conecta as pessoas” diz este.

Se o problema é a conexão há então um motivo para o fracasso de Llewyn, afinal seria um artista que negligencia o principal papel da arte que é a conexão de sentimentos. A arte de Llewyn é bela, melancólica, mas é totalmente auto interessada.

Porém o filme não é tão simples, essa não seria uma interpretação total mas parcial da obra. Essa fala do empresário pode ser apenas um subterfúgio que a indústria usa para lucrar em cima de simplórios como o cantor acima.

Portanto, Llewyn fracassa em um mundo em contínua decadência, onde as pessoas são carreiristas e não se importam com a arte em si mesma. Por outro lado, Llewyn também apresenta fragilidades e limitações essenciais em seu fracasso, sendo incapaz de dar o mundo aquilo que é exigido dele.

Talvez então, o filme seja o retrato de um indivíduo que naturalmente tem um dom sombrio, melancólico, mordaz e irônico e que devido as essas particularidades, não se ajusta a um mundo cada vez mais intolerante ao fracasso e ao lado escuro da vida.

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