Persona: Angústia e dissolução de identidade

Em filme lançado em 1966, o lendário cineasta Ingmar Bergman tenta entender o que constituí a personalidade de alguém nos apresentando a história da relação de Elisabeth Vogler, uma atriz que emudece pela própria vontade e a enfermeira Alma, que cuida dela. De uma relação de camaradagem, nascem conflitos e intrigas até que o espectador não consegue saber quem é quem.


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Um filme começa com uma sucessão de imagens bizarras e que parecem à primeira vista, totalmente aleatórias. Vemos o funcionamento interno de um projetor que projeta por sua vez, um desenho animado voltado de cabeça para baixo e depois um carneiro sendo estripado, uma mão sendo pregada, uma senhora numa cama, logo depois um garoto numa cama. Ele tenta se cobrir, mas sem obter sucesso, resolve ler um livro, depois olha para a parede onde vê a imagem de um rosto desfocado. O garoto tenta tocar o rosto e assim termina o prólogo do filme.

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É assim que começa o filme de Bergman, com um enigma que parece não poder ser resolvido em sua totalidade. Uma especulação inconsistente que podemos levantar é que o seguimento dos planos da aranha sobre um fundo branco, a mão sendo pregada e o carneiro sendo estripado remete ao cristianismo. Bergman geralmente associa a aranha a deus em seus filmes e o cordeiro nos remete à jesus cristo. É notória a influência do cristianismo no cinema bergmaniano, onde o cineasta sempre se debruça sobre o questionamento de sua existência.

O que nós podemos dizer, então é que esse prólogo parece um grande resumo das preocupações existenciais de Bergman, posto que o primeiro plano – o interior de um projetor – nos leva a um plano metalinguístico. O cinema é uma preocupação de Bergman, uma paixão, uma linguagem a qual o cineasta encontrou para tentar compreender a existência. O cinema é opacidade, construção, Bergman nos mostra que aquele é um filme, uma estória, mas que essa estória pode fazer-nos compreender certos aspectos de nós mesmos.

No prólogo também há cenas de um pequeno filme que Bergman inicialmente havia colocado em Prisão, seu primeiro filme autoral, de 1949, onde um homem é constantemente atormentado pelas contingências da vida, que são, por sua vez, o poder e opressão da sociedade – vivido pelo policial- e pelo medo da morte ou do sobrenatural – encarnado num tipo de demônio.

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Logo, o cinema nos leva a pensar e interpretar a experiência existencial em quase sua totalidade. O filme conta-nos a história de uma atriz, Elisabeth Vogler (Liv Ullman) que por conta própria, decide ficar muda. Junto com a enfermeira Alma (Bibi Andersson), elas vão passar um tempo numa ilha afastada. É aqui que o questionamento bergmaniano fica mais intenso e todos os aviso do prólogo parecem fazer sentido. O primeiro monólogo da doutora diagnosticando Elisabeth é magistral, ela entende a busca de sua paciente pela totalidade, isto é, a sua verdadeira personalidade, porém como a própria doutora diz, “a vida entra por todos os lados”.

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Não sabemos dizer até que ponto Bergman foi influenciado pela filosofia existencialista. É nítida sua influência de Kiekergaard, afinal a busca pelo indivíduo foi uma tarefa arduamente buscada pelo filósofo dinamarquês.

Entretanto, aqui Bergman parece romper com o dinamarquês, pois nos parece que a busca de Elisabeth por sua personalidade é constantemente malograda, seja pela contingência ou por suas relações pessoais. Quando Elisabeth interrompe os acontecimentos do cotidiano para descobrir a verdade é como se descobrisse que o EU é uma construção artificial, que depende de muitas outras coisas para se cristalizar.

Esse processo de niilização levado à cabo por Elisabeth evidencia tanto essa construção que Alma, a enfermeira fica constantemente confusa e até perturbada com o silêncio de Elisabeth. Esse silêncio parece ter uma força que suga a personalidade de Alma, é um silêncio que incomoda e faz a enfermeira perguntar-se sobre si mesma.

É assim que “a vida entra por todos os lados”, ou seja, a condição humana de ser um existente que vive num mundo, numa determinada sociedade, faz com que esse próprio existente tenha que lidar com essa realidade que invade a personagem, mesmo que ela não queira.

Assim, podemos fazer um paralelo entre o drama de Elisabeth e o pequeno filme do prólogo. Elisabeth é oprimida pelas contingências de sua condição humana. Se ela vivesse sozinha, provavelmente estaria bem, mas ela não vive, ao contrário, vive no mundo humano e suas regras. É aqui que a personagem encontra uma barreira na busca por sua verdadeira personalidade. Ela é constantemente pressionada pelos padrões sociais que se esperam de uma mulher e inclusive, num momento chave do filme, descobrimos que a personagem se arrepende de uma atitude tomada decorrente dessas exigências sociais.

Portanto, só o fato de Elisabeth ser uma mulher numa sociedade ocidental a faz ter que lidar com coisas que a impedem de exercer sua liberdade plenamente.

É aqui que a influência existencialista fica bem evidente, por mais que em outas partes do filme, há referências à psicanálise, não há como não lembrar da filosofia de Sartre, onde toda busca por uma plenitude de identidade, isto é, de uma identidade essencial e imutável acaba sendo uma atitude de ma-fé para a condição humana que é a de simplesmente escolher e decidir-se a cada momento em sua liberdade gratuita.

Esse malogro fica nítido na apatia de Elisabeth, onde livre das pressões sociais e da convivência humana, sua personalidade reduz-se à uma abstração nula.

Porém, o conflito se dá entre essas duas mulheres e Alma, a enfermeira também apresenta, do seu modo, uma busca por uma identidade plena e imutável.

No início do filme, depois de deixar Elisabeth ouvindo música em seu quarto, Alma, quando passa um creme de rosto ao se preparar para dormir, pensa alto consigo mesma, num monólogo breve.

“É engraçado, pode-se fazer o que quiser” ela começa, como se a condição escolhida por Elisabeth a fizesse enxergar a extrema liberdade da condição humana e depois a enfermeira continua pensando em sua vida, como se casará com seu noivo, terá dois filhos e continuará sendo enfermeira. “ Tudo está predestinado” ela sentencia, não querendo de certo modo problematizar suas escolhas.

Mais tarde, no desenrolar de intimidade entre Alma e Elisabeth, a enfermeira irá transgredir as barreiras entre as duas, numa aparente dissolução de sua personalidade.

Logo, ambas têm um movimento de niilização de personalidade. Elisabeth escolhe essa niilização para descobrir quem ela é e acaba sendo totalmente dissolvida. Alma por sua vez, sofre o movimento oposto, julgava saber quem era e na dissolução da personalidade de Elisabeth, acaba dissolvendo a sua também.

Bom, mas pode-se perguntar se a obra bergmaniana detêm-se apenas a explorar esses temas ou ainda é mais abrangente. O que significa a cena onde Elisabeth se assusta com as imagens de extrema violência que são exibidas na T.V?

Pode-se argumentar que Bergman segue o paralelo da pequena cena no prólogo, onde o personagem é constantemente perturbado pelas contingências da vida e que dessa vez seriam as atrocidades sociais que perturbam Elisabeth. Parece que a atriz também se preocupa com o caos e o absurdo do mundo e sua mudez é uma resposta para esse caos.

Mas voltando para as características existencialistas do filme, Elisabeth parece sofrer de uma angústia frente ao arrependimento de suas escolhas. Ela tentou se enquadrar num papel pré-moldado de mãe, mas nem suspeitava que sua escolha tinha que ser feita gratuitamente, sem nenhuma pressão social.

Elisabeth achava que um filho preencheria a plenitude de sua vida e a deixaria num continuo estável, sem mudanças bruscas. Porém, como a filosofia Sartriana postula e parece reverberar no filme de Bergman, a condição humana é uma transcendência contínua rumo as suas próprias possibilidades, O que quer dizer que nos escolhemos a cada momento e que cada escolha é determinante para o direcionamento de nossas possibilidades.

A angústia, sentimento famoso da filosofia existencialista, nesse filme têm duas faces, a de Elisabeth e de Alma, ambas arrependidas de escolhas passadas.

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A enfermeira, por sua vez, numa cena de rompante efusão, confessa a Elisabeth que participara de uma orgia e abortara uma criança decorrente desse acontecimento. Alma depois questiona-se se é possível dizer alguma coisa e fazer outra.

Deve-se lembrar que o seguimento acima inicia-se com Alma dizendo que admira a ideia de dedicar toda a existência a um propósito, tal como as freiras de seu hospital. Porém, a mesma Alma admite, na confissão de seu “pecado” que têm curiosidade pelo mundo instável da sensualidade.

Agora, por esse prisma, pelo menos algumas partes do filme ficam claras e se não o entendemos cem por cento é que porque algumas coisas ficam para a interpretação subjetiva de cada espectador. Persona fala de temas recorrentes da experiência de vida humana, mulheres que frente ao seu passado, não mais se reconhecem autênticas e numa vertigem e confusão, uma foge para tentar encontrar uma personalidade una e imóvel, porém fracassa, (embora o final seja totalmente ambíguo a esse ponto), descobrindo a nulidade do conceito de identidade, a outra tenta fugir em papéis pré-estabelecidos e descobre que não tem uma identidade.

Trata-se então, de um filme desconcertante que a cada revisão parece ganhar mais força. Se pararmos para pensar nas reflexões expostas ao longo dos 80 minutos, ficaremos levemente perturbados, pensando no que consiste nossa personalidade. Somos produtos de nossas relações ou nos construímos independentemente¿ O que nos leva a outra frase famosa existencialista que diz em linhas gerias que somos aquilo o que fazemos do que fazem de nós, embora talvez essa seja a especulação mais estapafúrdia desse já muito especulativo texto.

Persona, então, nos parece uma amálgama de perguntas sobre o que de fato constitui nossa personalidade e se não se preocupa em responder o porquê (exatamente) do conflito entre Alma e Elisabeth é porque quer ser, como a maioria dos filmes de Bergman, uma pergunta.

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