O Holden Caufield em cada um de nós

Como e por que o icônico personagem criado por J.D Salinger define a juventude tão bem, mesmo com o passar do tempo.


Eu quase odiei literatura por causa do colégio. Na adolescência, enquanto me via perdido em meio às duvidas e as provações dessa fase da vida, enfrentei o martírio de ler os grandes clássicos, com o único objetivo de passar na matéria. Pior do que ler um texto rebuscado e cheio de palavras que não fazem mais parte do nosso vocabulário cotidiano, só mesmo a obrigação de me ater a personagens e tramas com os quais não conseguia criar nenhum tipo de identificação. Em suma, eu era um moleque imaturo que sofria diante de um material direcionado às pessoas feitas e bem letradas.

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O tempo passou, tornei-me um adulto, e o mesmo método que aniquilou (e ainda aniquila) potenciais amantes da leitura não me afeta mais. Tornei-me um grande admirador dos mesmos livros e autores que tanto odiei no passado. Com eles, pude aprender muito sobre um pouquinho de tudo: o mundo, a vida, eu mesmo... Tudo o que era mecânico e abstrato entre os muros da escola tornou-se espontâneo e perceptível, assim que ganhei minha autonomia.

Sempre que falo a respeito de espontaneidade, percepções, obrigações e maturidade, correlacionando-os com a minha história de vida, lembro-me sempre do protagonista de um dos meus livros preferidos: O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D Salinger. Holden Caufield foi o primeiro personagem literário que pôs para fora tudo aquilo que jazia entalado na minha garganta – e também uma das figuras que melhor exemplificam a condição humana diante do nosso mundo cão.

Amado por uns, odiado por outros e intrigante para todos, o novaiorquino de 16 anos estremeceu a sociedade conservadora americana com os seus relatos no início dos anos 50, quando o livro foi publicado. O público jovem adorou, na época, a velha guarda, nem tanto. Censurado em muitas instituições de ensino, nos anos posteriores ao seu lançamento, o livro é hoje, vejam só, leitura obrigatória nos colégios estadunidenses. Professores que pouco ou quase nada sabem sobre a juventude contemporânea empurram a obra prima de Salinger goela abaixo nos seus alunos que não conseguem digerir, mas isso não vem ao caso agora. A grande “polêmica” da trama se deu pelo fato de Salinger acertar onde muitos escritores e roteiristas erram: criar um personagem adolescente que seja factível para os próprios adolescentes.

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Chamem Salinger de louco e até de imprudente, mas não o acusem de ser hipócrita nem leviano. Ele não criou Holden para ser um herói, um guia, uma referência. Holden não está acima nem abaixo do leitor, mais sim nivelado com ele. Não é o cara que figura em pôsteres e páginas de revista, mas sim o sujeito que cruza os nossos caminhos diariamente e não nos damos conta. Não é a representação de tudo o que gostaríamos de ser, mas de tudo o que está ou já esteve no nosso inconsciente. Por ser franco conosco no decorrer da obra, escancarando uma ira por vezes irracional sem nenhum pudor, Holden nos faz lembrar que, bem no fundo, todos somos vulneráveis. Sabemos bem como é desconfortável bater de frente com as próprias deficiências e o quanto isso é necessário para o nosso crescimento pessoal.

Holden é um adolescente cínico, socialmente deslocado, que rejeita os valores que lhe foram impostos e que quer ser salvo da vida adulta, crescendo numa época cheia de tabus. Quase sete décadas depois, o mundo mudou bastante. Quem era reprimido resolveu sair do armário. As minorias ganharam força política. O livre arbítrio foi banalizado. Temos escolhas. Toda e qualquer informação está ao alcance dos nossos dedos. Mesmo assim, há vários Holden Caufield’s resistindo mundo afora. Os jovens de hoje tem todas as facilidades que Holden nunca teve, mas muitos deles continuam insolentes e desesperançados. Dois pesos, uma medida. Outra época, outras circunstâncias, mesmos dilemas. O que torna os clássicos, clássicos é justamente a atemporalidade. Salinger nos mostrou, com grande destreza, o que é ser realmente jovem: as descobertas interiores e exteriores, as expectativas intrapessoais e interpessoais, as dúvidas, a rebeldia, o desejo de ser revolucionário, ou pelo menos de ser ouvido, e evitar o inevitável. Holden foi tão aberto conosco que deu ao leitor o poder de (sub) julgá-lo. Apontamos o dedo para ele, da mesma maneira que muitos fazem com a gente. Somos todos pecadores, e isso é típico da nossa natureza. Muitos dos que odeiam o livro alegam a mesma coisa: “É só um moleque falando de si próprio”. Ora bolas, e o que é que 90% dos bloggers, vloggers, youtubers e afins fazem mesmo? Há os que o odeiam pelo fato de ele ser muito confuso e depressivo, mas será que essas mesmas pessoas são felizes e decididas o tempo todo? Podem chacotear e fazer pouco caso, mas não se esqueçam: ele tem mais pena de nós do que o contrário.

O livro tem um final ambíguo. Holden dá um ponto final ao seu longo depoimento, sem nos dizer como ou onde está. Jamais saberemos o real desfecho, pois J.D Salinger, o único ser vivo que poderia nos oferecer uma pista concreta, tornou-se um homem recluso e incomunicável, vivendo assim por décadas até a sua morte. Resta ao leitor levantar hipóteses, seja por intuição ou decifrando as várias metáforas no decorrer da narrativa. “A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir falta de todos”, diz a ultima frase do livro. Holden que me desculpe, mas para o bem de pessoas como ele, terei que refraseá-lo: “Não guarde tudo para sí. Divida com quem se importa ou partilha da mesma cruz nas costas, pois assim jamais ficarás sozinho ou desamparado.”


version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Gabriel Marinho