o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Relógio de ponteiro

O medo que temos da velhice não está relacionado às marcas do tempo no corpo. Temos medo é que essas marcas nos desnudem a alma.


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Tenho certa angústia de relógios de ponteiro, desses que fazem aquele tic cada vez que mudam de segundo. A cada segundo, um tic. E depois outro, outro, outro. Até chegarem ao minuto seguinte. Parar em frente a um relógio desses é perceber a doçura cruel da passagem do tempo. Por isso, prefiro relógios digitais, eles enganam. E nós gostamos de ser enganados quando o assunto é tempo. Os relógios digitais não gritam os segundos, não ficam nos lembrando de que a contagem é regressiva. Quando percebemos, já é outro minuto. E pronto!

Assim também é a vida, quando percebemos, já é outro dia, outro mês, outro ano. Nunca me esqueci do que ouvi, certa vez, de uma senhora velhinha com cheiro de vó. Disse ela: Não sei como aconteceu, acordei essa manhã com 90 anos!

Talvez seja melhor assim, a gente vai vivendo, simplesmente. Sem pensar nos relógios de ponteiro. Vamos acolhendo as marcas do tempo sem julgá-las. Difícil isso! Não entendemos nada sobre envelhecer. Nem a senhora, aos 90 anos, entendia. Um dia ela percebeu que a velhice chegara. Assim, de repente! E no rosto, as marcas do tempo escancaravam a sua alma.

Sim, quando se é jovem, a alma fica escondida por trás do vigor das bochechas coradas. Mas na velhice, a alma não consegue mais se esconder, ela grita a quem se atrever, ela está à mostra. O medo que temos da velhice não está relacionado às marcas do tempo no corpo. Temos medo é que essas marcas nos desnudem a alma.

Talvez seja por isso que velhos voltam a ser criança. Porque crianças não estão nem aí para o espelho. Não se preocupam com julgamentos alheios, não tem nada a esconder. Elas apenas são. Drummond disse: “Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons”. Verdade!

Ainda me lembro de quando meu pai me disse que tinha 33. Achava uma idade longínqua que não conseguia sequer mensurar na linha da minha pequena existência. Hoje, os 33 já passaram, os dele e os meus. É uma questão de perspectiva. Como escreveu Mário Quintana: “O tempo é um ponto de vista. Velho é quem é um dia mais velho que a gente”.

A verdade é que, analógico ou digital, o tic tac do relógio não para. Então tratemos de cuidar da alma. Pois um dia ela estará lá, escancarada pelas marcas do tempo. E não haverá como esconder as loucuras e doçuras que guardamos do lado avesso. A alma escorre pelos olhos. Nua! E olhos antigos não mentem.


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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