o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

O ridículo que habita em nós

Andamos tão secos que, qualquer dia desses, vamos sentir a alma se quebrar: esfarelada como um sequilho de nata. Onde foi mesmo que nos perdemos?


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Encantar, segundo o dicionário informal, significa “exercer suposta influência mágica. Seduzir, cativar, fascinar. Provocar irresistível admiração”. Que palavra bonita! O encantamento é o ingrediente que mantém as estruturas de pé. Quando ele acaba, as paredes desmoronam. Espalham-se cacos por todos os lados, você se machuca. E as pessoas ao redor também cortam os pés.

Quanto mais caminhamos pela vida, mais cacos acumulamos. É natural! Vem as perdas, as dores, as tragédias, as decepções. Pergunte a um idoso sobre seus cacos e ficará surpreso. Pergunte a um jovem e também ficará. Todo ser que respira, em algum momento, sofre. Não seria uma vida intensamente vivida se não trouxesse lampejos de dor. Cecília Meireles bem disse: "E é nisto que se resume o sofrimento - cai a flor e deixa o perfume no vento!".

Há aqueles que ignoram os cacos, muitas vezes nem percebem que algo se quebrou e ficam surpresos quando a casa desmorona. Há aqueles que guardam os cacos no bolso e, por isso, tem as mãos eternamente feridas. Há aqueles que juntam tudo e fazem um belo mosaico. Pessoas assim brilham quando bate a luz do sol, pois suas almas são coloridas.

Às vezes, é preciso uma complexa operação de resgate para trazer de volta o encantamento perdido. Nesse processo, um pouco de loucura não faz mal a ninguém. Aquela loucura boba, ingênua, que nos torna infantis. Temos andado tão secos que, qualquer dia desses, vamos sentir a alma se quebrar: esfarelada como um sequilho de nata.

Na busca desenfreada por aceitação, esquecemos do ridículo que habita em nós. Ficamos sérios demais. “A imperfeição é bela, a loucura é genial e é melhor ser absolutamente ridículo do que absolutamente chato”, já dizia Marilyn Monroe.

Quando percebemos, lá estamos nós: sequilhos de nata tentando fazer algum sentido. Basta abrir as redes sociais e constatar, tristemente, que não somos mais ridículos. Pelo contrário, somos todos politizados e inteligentes. Cadê os loucos conscientes que fazem o mundo mais leve?

Jack Kerouac era um desses em extinção: “porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações...”.

Talvez esse texto não faça sentido, e isso não causa dor. Textos são como pessoas, não fazer sentido pode ser libertador!


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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