o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Peças avulsas também são felizes

Nós, meros mortais, fomos criados para desejar a vida das celebridades, o mundo da ficção. Talvez seja esse um dos grandes motivos de frustração da sociedade moderna, querer algo que não existe.


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Somos clichês ambulantes debaixo do teto do mundo. Fingimos originalidade, mas fomos criados para desejar o final feliz das novelas de Manoel Carlos. Todas as mulheres se casam e aparecem grávidas no último capítulo. Todos os homens são bem sucedidos e dirigem seus importados. E os idosos? Ah, esses são mandados para alguma viagem zen pelo mundo. Sim, poderia até ser um belo final! Mas o que acontece se não quisermos nada disso?

Já imaginou se a mocinha não tiver filhos? Não quiser se casar? Socorro sociedade, e se ela não for mocinha? Se falar palavrão? Como ficarão os lares se a doce mãe de família soltar um puta que pariu na cozinha, enquanto serve o prato do marido? Espera aí, mas ela não tem marido (porque não quer). Não sabe cozinhar (por opção). Ela não é mãe de família e sim, fala palavrão.

Ele, o lado masculino dessa história, gosta é de bicicleta. Não trabalha em uma grande corporação e prefere cuidar da horta nos finais de semana. Troca a robusta conta no banco por um robusto pé de alface nascido fresquinho no próprio quintal. Pode ou não ser solteiro, pode ou não ser gay, pode ou não ser mocinho, pode ou não morar no Leblon. Certo? Errado! Na TV, se for mocinho tem que morar no Leblon. Se for vilão pode morar em Brasília, lá todo mundo é ladrão. Certo? Na vida real, não!

Nos filmes, o amor sempre vence. Ninguém sofre, ninguém sobra, ninguém é peça avulsa. O mocinho e a mocinha sempre se encontram. E todo mundo transa no final! Lindo, mas muito longe da vida real. Aqui, debaixo do teto do mundo, mulheres não acordam maquiadas. Às vezes o cabelo engrenha e a unha encrava. Nem toda mulher é mãe. Nem toda mãe é mulher.

O que impressiona é que nós, meros mortais, fomos criados para desejar a vida das celebridades, o mundo da ficção. Talvez seja esse um dos grandes motivos de frustração da sociedade moderna, desejar algo que não existe. A bunda que aparece na capa da revista é (salvo em alguns casos) mentira. E perseguir uma mentira por muito tempo cansa. Dia desses reli algumas matérias sobre o Ken humano, aquele que fez um milhão de plásticas para parecer o namorado da Barbie. Pensei em escrever algo sobre isso, mas as palavras saíram correndo assustadas. Mais assustador ainda é saber que há diversos outros casos como esse pelo mundo afora, de gente querendo deixar de ser gente.

Todos nós, em algum momento, desejamos o final das novelas, a fantasia dos filmes, a bunda das celebridades, a grana no bolso, o amor perfeito. Mas os casais felizes da novela das 8 não fazem cocô. Não surtam. Não erram. Ou quando erram, um pedido de desculpas com flores caindo de um helicóptero resolve o problema. Se você, ator da vida real, ficar esperando por isso, vai se frustrar. Até porque, com essa crise, quem tem dinheiro para alugar um helicóptero?

Calmamente, voltemos à vida real! O amor perfeito (e todas as outras coisas) existe fora das telonas. Para ser perfeito precisa de altos, baixos, alegrias e tristezas. O pedido de desculpas pode ser acompanhando de um cafezinho, uma coxinha com catupiry de um boteco pé sujo qualquer, e olho no olho. Nada melhor do que a verdade de um olho no olho, nem mesmo um helicóptero jogando flores.

Então, tratemos de viver de verdade enquanto estamos aqui, seres mortais, debaixo do teto do mundo! Você pode se casar ou não, ter filhos ou não, ter dinheiro ou não, viajar pelo mundo ou não. Pasmem os conservadores, peças avulsas também tem belos finais.

O importante é que viveram felizes suas histórias da vida real. O “para sempre” é opcional!


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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