o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Procuro uma dor maior do que a sua

Carregar um problema é como ter um troféu a ser guardado a sete chaves na gaveta quentinha do coração. Daqui não sai, daqui ninguém tira.


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No elevador, cedinho, antes mesmo que o dia começasse de verdade:

- Rapaz, ontem aconteceu uma coisa terrível, bati meu carro.
- Comigo foi pior, assaltaram a minha casa.
- Pois é, o conserto do carro vai me dar um prejuízo danado, 1.000 Reais.
- O meu será ainda maior, 20.000 Reais.
- Pô, logo agora que estou mal de grana. Tive que pedir dinheiro emprestado pra minha mãe.
- A minha situação é mais grave, tive que pegar empréstimo no banco, a altos juros.
- Cara, acho que o dia hoje vai ser daqueles, viu?
- Pode ter certeza, o meu será pior...

Ao chegarem ao andar, se despediram normalmente e seguiram suas vidas. Não perceberam que estavam ali, há cinco minutos de um dia que mal começara, disputando de quem era a desgraça maior. Quando foi que começamos a competir por problema? Uma hora ou outra, todos nós fazemos isso, como se o problema fosse um troféu a ser guardado a sete chaves na gaveta quentinha do coração. Daqui não sai, daqui ninguém tira.

A psicologia fala muito sobre isso, sobre o medo de nos desapegarmos das coisas ruins. Deveria ser o contrário, mas não é. O problema faz parte da gente, sem ele perdemos a identidade. Por isso, tantas pessoas ficam presas em relacionamentos totalmente conturbados, para poderem reclamar da situação. Se a situação é resolvida, fica aquele buraco no peito, o vazio. E é melhor ter um problema guardado no peito do que o vazio.

Todo esse dilema humano se resume, belamente, a um Poema de Leminski: “Um homem com uma dor é muito mais elegante. Caminha assim de lado, como se chegando atrasado, andasse mais adiante. Carrega o peso da dor como se portasse medalhas, uma coroa, um milhão de dólares, ou coisa que os valha”.

Talvez isso explique a quantidade de sangue encontrada nos telejornais. Nós queremos ter problemas. Nós queremos ver os problemas dos outros. E assim, nossa esperança é desconstruída com a simplicidade de um gesto: ligar a televisão. Lá vem miséria, corrupção, assassinatos, roubos, epidemias, terremotos, mortes.

Não sobrou nada de bom? Nadinha? Nenhuma notícia boa, alguma invenção de ciência, algum gesto de amor? Não é possível! Otimismo, a gente não se vê por aqui. Deveria ser lei: para cada notícia ruim, uma boa. Pois a vida não é assim? Guimarães Rosa concordaria: “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Realmente, coragem é o que a gente precisa ter antes de ligar a TV. Ainda bem que cada um carrega seus próprios problemas. Assim, ninguém se sente sozinho nesse mundo todo ao contrário! Ópios, édens, analgésicos? Ah, Leminski: “Não me toquem nessa dor, ela é tudo que me sobra. Sofrer vai ser a minha última obra”.


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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