o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Estabilidade ou morte!

Pesquisa revela que 1 em cada 2 profissionais estão insatisfeitos com o trabalho. Às vezes, o preço que se paga para ter a sensação de estabilidade é colocar o coração na corda bamba.


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O slogan da faculdade dizia: “Da sala de aula à aprovação no concurso público”. Foi-se o tempo em que as pessoas falavam em sonho, em talento, em vontade de exercer uma profissão por prazer. Foi-se o tempo em que as pessoas faziam testes vocacionais. Antigamente, em um tempo não tão longínquo assim, as próprias escolas ofereciam esses testes vocacionais. Na maioria das vezes, você saía do teste com mais dúvidas ainda, mas a intenção era boa: encontrar algo que lhe trouxesse paixão.

E fazer algo com paixão não significa abrir mão de ganhar dinheiro. Pelo contrário, se faz com paixão, provavelmente será bem sucedido e, consequentemente, ganhará dinheiro. As pessoas confundem isso. Vejam os músicos, por exemplo. A maioria teve que enfrentar maus bocados para seguir a carreira, muitas vezes ir contra os próprios pais que queriam que eles tivessem uma profissão “normal”. Não é um caminho fácil seguir um sonho.

Aí, o que acontece quando você consegue trabalhar com paixão? As pessoas acham que não é trabalho. Músicos profissionais estão cansados de ouvir: mas você não trabalha de verdade? Depois vem o problema da remuneração: Ah, você toca por prazer, nem precisa cobrar! Gente, músico também paga contas de luz.

Uma pesquisa da revista Exame revelou que 1 em cada 2 profissionais estão insatisfeitos com o trabalho. É muita gente! As razões são variadas, mas giram sempre em torno da falta de motivação. Como ter motivação quando a preocupação principal não é fazer o que gosta, mas ser estável?

Claro que em um país como o nosso, em um momento de crise, estabilidade é algo a ser considerado. Mas ter alguém da área de comunicação (que geralmente odeia números) trabalhando no departamento financeiro, não dá. Ou alguém do financeiro (que geralmente odeia palavras) trabalhando na área de comunicação, também não.

Não, esse não é um texto contra o concurso público. Esse é um texto contra o abandono do sonho, contra a troca do talento pela estabilidade. Há pessoas incríveis dentro dos órgãos públicos exercendo atividades em suas áreas e fazendo a diferença. Há pessoas incríveis que abandonaram carreiras estáveis porque estavam infelizes. Mas essas ainda são minoria.

Há tantas outras que não tem coragem de mudar, por razões aquelas que não nos cabe julgar. Gente que desperdiça talento, mas ganha milhões fazendo algo que não gosta. O que vale mais? Cada um tem seus critérios. Às vezes, o preço que se paga para ter a sensação de estabilidade é colocar o coração na corda bamba.

A verdade é que a vida é um sopro. E passar, sei lá quantas horas por dia, fazendo algo que te traz tédio, não deveria ser bom. Mesmo ganhando milhões. As escolas não deveriam querer levar os alunos à aprovação no concurso público, mas sim, ao entendimento da profissão que melhor as define. Se a conclusão for o concurso público, ótimo, toma coragem e estuda. Mas encontre algum prazer nisso.

E quanto à faculdade mencionada no início desse texto, deveria contratar um bom publicitário para trabalhar seu slogan. Agora, é rezar para que o bom publicitário não tenha abandonado a carreira e esteja enfurnado em algum outro lugar. Estável...


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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