o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Ah, vá se perder!

Alguém já se perdeu durante uma viagem a um destino desconhecido (mesmo com o mapa nas mãos) e acabou chegando a um lugar muito mais legal do que o planejado? Pois é, a vida também tem dessas coisas.


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À medida em que caminhamos, vamos acumulando coisas, materiais e imateriais, no mundo real ou na imaginação. Vamos acumulando coisas que nos lembrem quem somos. Como na velha história de João e Maria: os dois, com medo de se perderem, iam deixando pedrinhas por onde passavam. Assim, não esqueceriam do caminho de volta. Pois é isso que fazemos, vamos deixando guardados fragmentos da vida para, um dia, se precisarmos olhar para trás, nos lembrarmos do caminho de volta.

Quem é idoso ou tem idosos por perto sabe bem como são essas coisas. Eles acumulam. E não é raro serem julgados pelos mais novos. Afinal, aquela caixa velha de ferramentas não serve pra mais nada. Há tantas ferramentas mais modernas que resolvem tudo com um simples clique, não é mesmo? Dirão os netos: para quê guardar isso, vô? Mas a verdade é que o apego não é pela caixa de ferramentas enferrujada, é pela lembrança do que aquele senhor já foi um dia, quando a velha caixa ainda era nova. O apego é uma pedrinha jogada pelo caminho para que ele se lembre da juventude.

É como álbum de fotos. O que são as fotos senão pedrinhas e mais pedrinhas que acumulamos para evitar que nossa alma fique por aí, vagando perdida? Até aí, tudo bem...

O problema é quando acumulamos coisas ruins pelo simples medo de não acharmos o caminho de volta. Espera aí, ninguém falou que a gente precisa ter sempre noção de onde está. Há horas em que é necessário colocar as pedrinhas no bolso e caminhar sem direção. Alguém já se perdeu durante uma viagem a um destino desconhecido (mesmo com o mapa nas mãos) e acabou chegando a um lugar muito mais legal do que o planejado? Pois é, a vida também tem dessas coisas.

Então, de vez enquanto, vá se perder! Clarice Lispector, sempre ela, escreveu certa vez: perder-se também é caminho. E não é a mais pura verdade? Se acumular faz parte da natureza humana, acumule apenas pedrinhas do bem.

Porque o mundo inteiro cabe no coração de uma pessoa quando há espaço. Cabe gente diferente, ideias e idiomas. Cabe encontrar um amor ou viajar sozinho. Cabe correr sem relógio, sem medo, sem destino. Cabe andar depressa ou bem devagarinho. Cabe se perder na estrada e, mesmo assim, encontrar o caminho.


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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