o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

As crianças do meu bairro

Hoje é domingo. Poderia ser outro dia qualquer. Uma mãe coloca sua criança dentro de um barco. Amarra forte o colete salva-vidas, reza para o seu Deus. Lá fora está escuro, mas dentro dela há luz. Ela só quer chegar, a qualquer lugar.


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Hoje é domingo, faz um dia lindo lá fora. Olho pela janela e as vejo, alegres e barulhentas: as crianças do meu bairro. Algumas estão acompanhadas dos pais ou das babás, outras, as maiores, já brincam sozinhas. Percebe-se que, no fundo, nenhuma delas está realmente ali. Os pensamentos estão longe, sobrevoando montanhas, combatendo monstros, dançando nos contos de fada.

As crianças do meu bairro gostam mesmo é de fazer aniversário, esperam ansiosamente enquanto perguntam aos pais quando chegará o grande dia. E que dia! Elas ganham presentes, bolos e velas. Elas fazem pedidos, tantos pedidos quanto alcança a imaginação. Como são lindas as crianças do meu bairro, com suas bochechas coradas e corações transbordantes.

Hoje é domingo. Poderia ser outro dia qualquer. Uma mãe coloca sua criança dentro de um barco. Amarra forte o colete salva-vidas, reza para o seu Deus. Lá fora faz frio e está escuro, mas dentro dela há luz, esperança de dias melhores. Tudo o que quer é chegar: qualquer lugar sem bombas, sem dor, sem morte. Ela só quer chegar, a qualquer lugar. Onde haja bolo, presentes e velas. Onde crianças façam aniversários.

Pena que meu bairro fica muito longe. Eles não vão conseguir chegar até lá. Não vão conseguir chegar a qualquer lugar. Apenas sua imagem correrá o mundo. Uma imagem da esperança perdida, da vela que derrete e queima os corações, do mar que beija o corpo sem vida. As pessoas do meu bairro se entristecem, enquanto arrumam a cama quentinha de seus filhotes. Elas têm vontade de ajudar, mas como? É difícil demais, distante demais, aterrorizante demais.

Observo a imagem com cuidado. Lá está ele, o menino. Seu nome é Aylan, disseram na TV. Lembro-me da minha infância, do leite com chocolate, da cama quente, do bolinho de chuva, da minha mãe. Lembro-me da imaginação que outrora tive, e que me levava a mundos distantes. Pela janela, vejo as crianças do meu bairro. E rezo pelo menino. A uma hora dessas, ele já deve estar longe. Sobrevoando montanhas, combatendo monstros, dançando nos contos de fada...


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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