o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Quando a competição envenena a alma

Você não precisa brilhar para sete bilhões de pessoas no mundo. Se conseguir brilhar para apenas uma, já terá valido a pena caminhar por essa vida.


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A maioria de nós quer fazer a diferença no mundo. Afinal, de que vale a vida se não deixarmos alguma coisa para trás, para as gerações que virão a seguir? Talvez seja por isso que vivemos nessa correria, porque precisamos nos diferenciar de outras 7 bilhões de pessoas que também querem se diferenciar. Não é tarefa fácil. Vamos ficando cada vez mais competitivos, claro, por questões de sobrevivência. Mas espera aí, rebobinemos a fita. Quanto mais lutamos para nos destacar, mais padronizados ficamos. Enquanto isso, lá fora, o tempo passa sem sequer acenar.

A verdade é que o tempo é como uma sacola onde vamos guardando a vida. Seria bom se coubesse mais vida dentro dessa sacola. É pequena demais. Pois mesmo que vivêssemos mil anos, ainda assim, não conseguiríamos ver tudo o que esse mundo nos oferece. Pode ser por isso que as pessoas têm filhos. Porque, secretamente, acreditam que eles podem pisar os chãos que transbordaram da sacola do tempo de seus pais.

É esse transbordar da vida que nos preocupa. Já dizia o poeta Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta. E não basta mesmo! Até quem um dia tirou a própria vida, o fez porque ela era grande demais, não coube do lado de dentro do peito.

Então, seguimos nessa loucura, todos nós, tentando nos diferenciar. No mundo moderno é assim, tem sempre alguém querendo a sua vaga de emprego, o seu marido, a sua esposa, a sua casa, os seus amigos. Tem sempre alguém querendo o que é seu. E se você não se cuidar, se não for o melhor, vai ficar sem. Será mesmo? Egocentrismo demasiado de nossa parte achar que todo mundo quer ocupar o nosso lugar. A competição pode ser saudável, em alguns momentos, mas também pode envenenar a alma.

Ser o melhor não significa necessariamente ser o mais feliz, nem o mais bem colocado, especialmente quando se fala do mundo dos negócios. Há pessoas incríveis desempregadas e pessoas horrendas ocupando cargos de chefia. Ninguém disse que a vida seria justa. Infelizmente, não é. Então, honestamente, vale a pena relaxar, sentar na janela, e apreciar a vista enquanto estamos a bordo do trem da vida.

Quem sabe assim, livres da competitividade exagerada, consigamos efetivamente nos destacar? Você não precisa brilhar para sete bilhões de pessoas no mundo. Se conseguir brilhar para apenas uma, já terá valido a pena caminhar por essa vida. Assim como o Pequeno Príncipe para sua raposa: “Tu não és para mim senão uma pessoa inteiramente igual a cem mil outras pessoas. Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...”

Somos iguais a todas as pessoas que habitam esse planeta e, ainda assim, tão diferentes. Isso, no entanto, não tem a menor importância. Viver competindo cansa, e no final, não cativas ninguém.


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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