o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

No dia em que você chegou

O amor é um bicho caprichoso. Quando encasqueta, te pega pelo braço e te obriga a dançar. Quando você percebe, já está bailando no meio do salão. Eu bem que tentei correr...


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No dia em que você chegou, eu estava muito bem, obrigada. Havia tomado alguns tombos que deixaram marcas, algumas feridas ainda estavam cicatrizando, mas quem nesse mundo não tem dores? Andava um pouco desconfiada, é verdade, mas não pessimista. Olhava o mundo com ar cético, como quem já não acredita lá em muitas coisas. Mas, no fundo, eu gostava da imagem que via no espelho.

No dia em que você chegou eu estava rindo de mim, boba. Percebi que tinha imperfeições que nunca seriam extintas e talvez fosse esse meu maior valor, o imperfeito. Havia cortado, eu mesma, uma franja. E detestei! Por isso, só andava de cabelo preso. Pensei em raspar a cabeça, mas achei muito radical. Pensei em mudar de cidade, mas perdi a coragem. Pensei em começar aulas de dança, mas adiei para outra hora. Pensei em qualquer coisa, menos no amor. Porque o amor, esse nem me convencia mais. Pensei em mim, apenas!

Olhei para trás, de rabo de olho, e vi o passado acenando pra mim. Sinceramente, achei o passado meio idiota. Tem horas em que é preciso achar o passado idiota. Por questões de sobrevivência. Foi o que eu fiz.

Então, sem mais nem menos, você chegou. E eu, que nem estava preparada, me vi encarando o amor nos olhos, mais uma vez. Primeiramente, desdenhei. Tentei seguir meu caminho sem dar muita bola. Afinal, naquele dia, eu estava muito bem, obrigada!

Havia aprendido que, vez por outra, é preciso dançar sozinha. Eu não queria ninguém dançando comigo, honestamente! Mas o amor é um bicho caprichoso. Quando encasqueta, te pega pelo braço e te obriga a dançar. Quando você percebe, já está bailando no meio do salão. Eu bem que tentei correr. E de repente, lá estávamos nós, juntando os corpos e os sonhos.

Olhei para frente, de rabo de olho, e vi o futuro acenando pra mim. Sinceramente, achei o futuro muito atraente. Tem horas em que é preciso achar o futuro atraente. Por questões de felicidade. Foi o que eu fiz...


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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