o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Quem reclama seus males (não) espanta

Quando você reclama demais, pode esperar: o cocô do pombo vai cair na sua cabeça, o chiclete vai grudar no seu sapato e, é claro, a fila ao lado vai andar muito mais rápido do que a sua. Ó vida, ó azar!


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Aconteceu mais ou menos assim: a semana tinha sido de lascar, daquelas que só tirando 2 anos de férias para recuperar. Foi isso, foi aquilo, foi mi-mi-mi de tudo quanto era lado. Eu, no meio da confusão, entrei no ritmo. Ter gente reclamona por perto contagia. Quando percebi, também estava numa chatice só. E, de repente, a reclamona da história era eu.

Quando você está assim, pode esperar: o cocô do pombo vai cair bem na sua cabeça, o registro do caixa vai quebrar exatamente na sua hora, vai começar a chover no momento em que você sai de casa (sem guarda-chuva), o chiclete vai grudar no seu sapato e, é claro, a fila ao lado vai andar muito mais rápido do que a sua. Não tem para onde correr, negatividade atrai negatividade. Ó vida, ó azar!

Foi então que, depois de ver uma pilastra de concreto, enorme e sem escrúpulos, atacar impiedosamente meu carro, tomei uma decisão: para não atrair mais coisas ruins, passaria 1 mês sem reclamar. De nada, absolutamente nada!

Ai, como é difícil! A gente é acostumada a reclamar. Levamos as coisas muito a sério. Nossa tendência é emitir opinião sobre tudo, especialmente sobre as coisas que não gostamos. Gente, quem foi que disse que precisamos julgar tudo?

Aos poucos, fui deixando de julgar verbalmente as coisas. Mas, não se enganem, continuava julgando internamente (só não expressava em palavras). Depois, com muito custo, fui me policiando para não julgar, nem dentro, nem fora. É aí que começa a revolução!

A gente vai ficando mais leve, vai caminhando mais solta, vai deixando de achar que sempre precisa achar. Toda vez que eu pensava em julgar ou reclamar, lembrava de alguma coisa boa dessa vida. Ah, tem tanta coisa boa nessa vida, tanta coisa boba que faz a gente feliz. Pensava, por exemplo, em churros. Quem será que inventou o churros? Até o nome é engraçado. Um mundo onde há churros não pode ser levado tão a sério, não é verdade?

Se conseguíssemos dar valor ao que realmente é importante, viveríamos muito melhor. A alegria teria mais espaço nesse mundo cheio de loucuras. A alegria é uma jovem senhora, doida de jogar pedra. Todo mundo quer encontrá-la, mas morre de medo dela. Pois vai quando bem entende, visto sua qualidade efêmera. Depois volta sorridente como quem nunca te abandonou. Já vi gente fechar as portas com grade e a alegria nunca mais entrou. Eu prefiro abrir bem as janelas. Venha quando quiser, meu amor. De doido eu não tenho medo porque, no fundo, também sou!


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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