o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Brasília: cidade onde vizinhos não transam

Levávamos uma vida boa na capital. Até que o som começou a incomodar, as pessoas começaram a reclamar e os bares começaram a fechar. Fomos calando, calando, calando... Para não incomodar vizinhos que não transam.


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Esse texto será sobre a cidade de Brasília. Pronto! Só essa frase já é suficiente para fazer muita gente torcer o nariz, fazer cara de nojo ou simplesmente ignorar e desistir da leitura. Não te culpo, querido leitor! Não te culpo se preferir ler um texto sobre, quem sabe, o Rio de Janeiro. A verdade é que, se você ainda está aqui, acompanhando essas linhas, provavelmente é um brasiliense ou tem alguma relação com a cidade - boa ou ruim.

Não, não falarei aqui de política, nem das belezas do cerrado, nem do céu de Brasília, nem do traço do arquiteto. Gosto tanto dela assim, é verdade. Mas há outras coisas que precisam ser ditas. E precisam ser ditas para que a cidade não morra sufocada. Brasília está emudecendo e nós, seus filhos, ficando todos surdos.

Sempre nos gabamos de sermos uma cidade musical. Era só alguém de fora perguntar: mas o que tem para fazer em Brasília? Que a resposta já estava na ponta da língua: Brasília tem música boa. Naquele tempo, isso era o bastante!

Não medíamos esforços para citar sempre as grandes bandas que surgiram aqui. Afinal, somos a capital do rock, bebê! E também do samba, do choro, do sertanejo. Alguns músicos, como Cássia Eller, não nasceram em Brasília, mas passaram grande parte da vida na cidade. Filhos adotados também entram na lista, claro!

O melhor, o melhor mesmo, é que secretamente sabemos que Brasília tem muito mais do que músicos famosos. É música nossa, genuína, que nasce nas quadras, nos subsolos, na universidade. Música nossa que acontece dentro de casa, todos os dias.

Houve uma época, não tão longínqua assim, em que se ouvia música em todos os cantos da capital. A coisa borbulhava! Nos sentíamos praticamente em Recife. Sejamos honestos, se tem uma cidade que Brasília gostaria de ser é Recife. Porque Recife é um caldeirão cultural cheio de charme. A gente queria mesmo era ter inventado o Maracatu!

Mas conformados, levávamos uma vida boa por aqui. Até que o som, esse mesmo som de que sempre nos gabamos, começou a incomodar. E as pessoas, essas mesmas pessoas que citavam a música brasiliense em suas conversas de bar, começaram a reclamar. E os bares, esses mesmos bares que borbulhavam, começaram a fechar. De repente, Brasília emudeceu!

Emudeceu de tal forma que até o canto de um passarinho, daqueles bem miudinhos, já ultrapassa os limites de decibéis permitidos por lei. Fomos calando, calando, calando... Para não incomodar vizinhos que não transam. Vizinhos que não transam precisam de silêncio para dançar com a própria solidão.

Claro que há exageros acontecendo nas madrugadas. Mas não é deles que me refiro aqui. Falo da cultura saudável, de qualquer estilo. Falo da arte que não desrespeita e é necessária à vida. Essa, que também tem sido silenciada.

Quando foi que música começou a ser considerada poluição sonora? Shiiiiiii, não responda em voz alta. Aqui em Brasília, nós falamos baixinho. Não quero que ninguém seja preso! Nesse quadrado limitado, estão fechando tudo que extrapola os limites. Estão fechando mentes que pensam alto. Cuidado, sussurre! Nunca se sabe como anda a vida (sexual) do seu vizinho!


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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