o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Em tempos de orgânicos, cachorro-quente é um ato de coragem

A relação com a comida precisa ser consciente, não dá para levar em consideração tudo o que se ouve por aí. Saudades de uma geração em que a única coisa que fazia mal era misturar manga com leite.


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Já houve um tempo em que a única coisa que nos proibiam de comer era a temida combinação de manga com leite. A gente, criança, tinha um medo danado de morrer por envenenamento. Afinal, em nossos imaginários, a combinação era letal. Alguns, mais corajosos, provavam a mistura escondido só para ver se morriam mesmo. Não morriam. No máximo, vinha uma dor de barriga! E quem liga para dor de barriga quando se é criança?

Já os adultos, esses são diferentes. Tem mais medo das coisas. E por se preocuparem demais, acabam perdendo a alegria de um brigadeiro de colher. Muito açúcar, não pode! Olha a balança, Dona Maria!!!

Minha avó já dizia: fui criada com banha de porco. Na roça dos anos 30, de onde ela veio, não tinha óleo de canola. Era banha de porco mesmo. Se fosse hoje, meu Deus do céu, lá ia Dr. Dráuzio Varella falar na televisão: isso faz mal, minha gente, não pode comer de jeito nenhum! Minha vó, com quase 90 anos e uma saúde de ferro, não concorda!

Estamos na era das restrições alimentares. Queremos ficar mais saudáveis, viver mais, entender o nosso corpo. Muito bom isso! Mas daí a sentenciar de morte o cachorro-quente? Que pena mais triste, cachorro quente com molho quentinho, milho, ervilha e maionese é coisa linda dessa vida. Claro que não é para todo dia, mas pouca coisa no mundo é para todo dia.

Até os vegetarianos já começaram a sofrer, dia desses, passou na TV: refogar os legumes faz mal à saúde. A que ponto chegamos! Pobre da abóbora ensopadinha, não pode. Tem que ser no vapor! Não dá para jogar um queijinho por cima? Não pode! E uma torradinha? Nem pensar! Cuidado com o glúten! Ah, o glúten, esse sim está na moda. Só se fala nele, mas ninguém sabe exatamente o que é.

Não dá para equilibrar? Talvez seja esse o segredo da boa saúde, equilíbrio. Gente saudável é gente feliz, sem encanações loucas e que come um cachorro-quente (se você for vegetariano ou vegano, insira aqui outra coisa) vez por outra.

A relação com a comida precisa ser consciente, não dá para levar em consideração tudo o que se ouve por aí. Senão, vira uma loucura só: cuidado com o sal, o café, a gema do ovo, a carne vermelha, o frango com hormônio, o salmão de cativeiro, o vinho. Opa, o vinho não! Dizem que um copo de vinho a noite emagrece. Até que enfim, uma notícia boa. A gente sempre acaba acreditando no que nos convém.

A verdade é que há coisas que prejudicam o homem mais do que o bacon: preconceito, maldade, amargura, intolerância (e não é à lactose). Nossa geração está doente é de estresse! Ninguém vai morrer por causa de uma salsicha. Toma logo um leitinho com manga para rebater e vai ser feliz!

*Mais sobre a autora em www.facebook.com/palavrasquedancam00


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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