o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Palavras para um amigo gay

Obrigada por ainda acreditar em nosso país mesmo sabendo que estamos no final da fila na luta pela igualdade. A estrada é longa, há muito chão para a gente pisar. Eles destilam ódio, nós plantamos flores. Obrigada por arar a terra.


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Foi no início da vida adulta que tive o primeiro amigo gay. Tarde, eu sei. Antes disso, muita gente cruzou o meu caminho, vários colegas aqui e ali. Mas amigo, amigo mesmo, de compartilhar as coisas da vida, foi o primeiro. Divido minha existência entre antes e depois dele. Talvez por isso, gostaria de tê-lo conhecido muito, muito antes.

Nunca fui de preconceitos, de nenhum tipo, mas nunca havia tido nenhum envolvimento especial com a luta LGBT. Até porque, até então, não era a minha luta. Que bom que a essa altura da vida, foi-me concedida a alegria de ter um amigo gay. A ele, listo aqui as razões da minha enorme gratidão.

Obrigada, amigo, por me ensinar que a gente não trava apenas as nossas próprias batalhas. As batalhas que mais valem a pena nessa vida, não têm dono. Elas são minhas, suas, de todo mundo que acredita em outros tempos, melhores.

Obrigada, amigo, por me tirar da indiferença e me transformar em uma pessoa que compra a briga, que defende, que se indigna, na rua ou em qualquer lugar, ao ouvir qualquer tipo de preconceito. Porque não há defesa, absolutamente nenhuma defesa, para uma boca que destila ódio contra o que é diferente de si. Eles destilam ódio, nós plantamos flores. Obrigada por arar a terra.

Obrigada, amigo, por me mostrar a consequência e a força das palavras. Quantas vezes falei bobagens sem saber que aquilo poderia, sim, magoar-te. Não precisamos de mais mágoas derretendo o chão pelo qual pisamos. Obrigada, também, por me mostrar que esse mesmo chão pode virar uma incrível pista de dança, afinal, as vezes é preciso dançar na cara da parte hipócrita da sociedade. Você dança. E dança bem!

Amigo, querido amigo, obrigada por me mostrar que é preciso muita coragem para sermos quem queremos ser. Isso vale para todo mundo. Há tanta gente gastando a preciosa vida tentando ser outra pessoa. Então, cada vez que vejo você enfrentando um leão por dia pelo simples direito de ser quem você é, sinto um orgulho que não cabe no peito.

Obrigada, amigo, por ainda acreditar em nosso país mesmo sabendo que estamos lá no final da fila na luta pela igualdade. Temos pessoas públicas pregando os maiores absurdos por aí e, tristemente, angariando legiões de seguidores. Somos um dos países que mais mata homossexuais no mundo. Quem é mesmo que precisa de cura? No entanto, se vejo esperança nos seus olhos, também há esperança nos meus.

Queria poder te livrar de todo o preconceito. Mas a estrada ainda é longa, há muito chão para a gente pisar. Quando o cansaço chegar, deixa eu calçar seus sapatos. No final das contas, calçamos todos o mesmo número, sabia? Foi você quem me ensinou isso. Então, apenas quero que aceite: muito obrigada, amigo!

A vida é mesmo uma canção de amor: dá-me o prazer dessa dança?


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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