o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Encaixa nos meus quadris, não nos padrões da sociedade

Se a terra parasse de girar, cairíamos todos para o lado de fora tamanha é a loucura que habita esse planeta. Mas como ela não vai parar, paremos nós! Paremos de fazer o que os outros esperam, de dar importância demasiada ao que os outros pensam, de ser o que os outros querem.


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Essa história precisa começar pelo começo. E o começo diz que você está errado. Você sempre estará errado de alguma forma. A Internet ensina: 10 maneiras (corretas) de fazer qualquer coisa. De cozinhar um arroz com brócolis a experimentar o Nirvana durante a meditação, está tudo lá!

Se você é mãe ou pai, só de estar lendo esse texto, já está errado. Não deveria estar dedicando esse tempo ao seu filho? Certamente, há uma fórmula melhor do que a sua para criar um bebê. Essa marca de fralda não é boa, essa pomada também não. Amamentou em público, que feio. Não amamentou? Mãe desnaturada! Sua criança fez pirraça no meio rua? Falta de educação, se fosse meu filho...

Menina, você transou no primeiro encontro? Sua louca! Não vê Internet, não? Está tudo lá: 10 maneiras de conquistar o gato. A dica número 1 é clara, não transe na primeira noite. Transou, já era! Nem adianta ficar olhando esse celular, o cara não vai ligar. Se eu fosse você, me matriculava logo na escola de princesas para resgatar os valores morais!

E você, menino! Ligou no dia seguinte? Que trouxa! Machos alfa não ligam no dia seguinte. Não é macho alfa? Deve ser homossexual! Já procurou tratamento? A que ponto de intromissão na vida alheia chegamos.

Se a terra parasse de girar, cairíamos todos para o lado de fora tamanha é a loucura que habita esse planeta. Mas como ela não vai parar, paremos nós! Paremos de fazer o que os outros esperam. Paremos de dar importância demasiada ao que os outros pensam. Paremos de ser o que os outros querem. Por mais que você tente, alguém sempre vai achar que você não está certo o bastante. Então, errado por errado, é melhor ser você. Na maioria das vezes, mais vale se encaixar nos quadris de alguém, do que nos padrões da sociedade.

Sabe a Cora Coralina? Provavelmente, já veio à sua cabeça a imagem de uma senhora velhinha. Sabe por quê? Porque ela publicou seu primeiro livro aos 76 anos. 76 anos! Alguns de seus relatos afirmam que, quando completou 50, ela experimentou uma grande transformação: diz que perdeu o medo. Foi então que teve coragem de assumir seu pseudônimo (o nome verdadeiro dela é Ana Lins) e ser quem queria ser. Deixou um legado para o mundo como Cora Coralina, gigante. Talvez, apenas talvez, se tivesse continuado Ana, não estaríamos falando dela. A gente renasce quando perde o medo. Não apenas o medo de altura, de dirigir, de barata ou de avião. O medo mais perigoso é o medo de ser.

Clarice Lispector sabia: “O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado”.

Arrisquemo-nos a ser, com medo ou sem medo, aquele pseudônimo guardado na gaveta. Coralinizemo-nos, de uma vez por todas. E a sociedade que, humildemente, nos acompanhe!


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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