o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Mulheres que quebram os pés

Temos os dedos quebrados quando a roupa que usamos "autoriza" o estupro, quando somos caladas nos tribunais, quando somos mortas por simplesmente dizermos NÃO! Ainda hoje, homens raramente têm calos nos pés.


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Imagine uma menina de 5 anos de idade sendo obrigada a amarrar os pés com ataduras tão apertadas, mas tão apertadas, capazes de entortar o calcanhar e dobrar os dedos até quebrá-los, um a um. Imagine esse costume sendo passado de mãe para filha, por séculos a fio, com um único objetivo: agradar o sexo masculino. Era isso que acontecia na China do século X. Relatos dizem que os homens se sentiam atraídos por pés pequenos e deformados.

A intenção era que a deformidade chegasse a tal ponto que os dedos unidos lembrassem uma vagina. Quanto mais parecido, mais os homens gostavam e aumentavam consideravelmente as chances da menina arrumar um bom casamento. Mesmo depois de casadas, seguiam com os pés enfaixados, seguiam com os pés enfaixados por toda a vida. O costume, chamado de “Pés de Lotus”, só foi banido em 1949, mas, no sentido literal ou não, mulheres continuam sendo obrigadas a quebrar os pés, todos os dias.

Temos os pés quebrados quando a roupa que usamos "autoriza" o estupro, quando somos caladas nos tribunais, quando somos mortas por simplesmente dizermos NÃO! Temos os pés quebrados cada vez que ouvimos a mesma piada machista perpetuada de pai para filho, quando precisamos subir no salto pela manhã, cumprir 3 turnos de trabalho por dia, e ainda receber salários menores. Homens raramente têm calos nos pés.

Em muitos países africanos, meninas ainda tem seus órgão genitais retirados para restringir a sexualidade. No Brasil, até 2003, segundo o Código Civil, homens poderiam anular o casamento até dez dias após o matrimônio, se descobrissem que suas esposas não eram virgens. Sim, 2003!!! Logo ali...

Muitas vieram antes de nós e morreram para que pudéssemos ter voz. As sufragistas, os sutiãs queimados, a “santa” inquisição. Aquelas meninas chinesas não estão sozinhas. Aqui estamos nós, séculos depois, ainda com os pés enfaixados. É por elas, e por nós, que precisamos continuar na luta.

As estatísticas são números que gritam desesperados Brasil afora: 13 mulheres são mortas por dia (por DIA) por homens que, muitas vezes, são seus próprios "parceiros". Nossa luta é pelo direito ao NÃO sem precisar pagar com a vida.

Nossa luta é para que possamos ser donas de nós mesmas, desamarrar os pés, que estão quebrados desde o século X (e muito antes). Queremos diminuir os calos, desentortar os dedos, retirar as correntes, para que nossas filhas e netas possam pisar esse mesmo chão que pisaram nossas antepassadas: com pés íntegros!


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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