o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Não seja uma barata voadora

Tem gente que, quando pisa no recinto, faz todo mundo sair correndo. Tem gente desagradável de graça. Você já reparou que tentar espantar a barata faz com que ela corra exatamente na sua direção? Ah, quanta semelhança entre as espécies, não é verdade?


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Barata é barata em qualquer lugar do mundo. O animal é asqueroso e provoca reações adversas em muita, muita gente. Não é porque ela está no planeta há 325 milhões de anos que a convivência com os humanos (que diga-se de passagem chegaram bem depois) é pacífica. Pelo contrário, a guerra é declarada! Se a bicha voar então...

Acontece que, curiosamente, há seres humanos que se comportam de forma parecida às queridas baratinhas. Pense bem, com certeza você conhecerá alguém que, quando pisa no recinto, provoca imediatamente reações desagradáveis. Lembrou? É aquele salve-se quem puder. Quem conseguir se esconder, se esconde. Quem não conseguir, precisará encarar a companhia.

O pior é gente do tipo barata voadora. Quando chega, sai todo mundo correndo. A pessoa geralmente fica lá sem entender o porquê daquele deus nos acuda. Esse porquê pode ser muita coisa: grosseria, fofoca, maledicência. Tem gente desagradável de graça. Você já reparou que tentar espantar a barata faz com que ela corra exatamente na sua direção? Ah, quanta semelhança entre as espécies, não é verdade?

Por isso, às vezes, o melhor a fazer é tentar passar despercebido, abrandar os passos ao entrar na cozinha. Aconteça o que acontecer, não faça contato visual. Autocontrole é palavra-chave nessas ocasiões. Pode ser que dê certo, pode ser que não. Na vida, é preciso assumir riscos. Nem sempre você tem uma alternativa de defesa em mãos. Quando mais precisa, acabou o inseticida. Quando mais precisa, esqueceu o fone de ouvido.

Catsaridafobia é o nome dado a quem tem fobia de barata. Imaginem, é um medo tão grande, mas tão grande, que às vezes precisa de tratamento. Não é raro pessoas também despertarem esse tipo de medo nas outras. Desconforto, medinho, pavor: os graus são variados. Tem gente que gosta de ser temida, acha bonito. Talvez as baratas sejam um pouco mais humildes.

A verdade é que é preciso encarar os fatos. Atualmente, habitam esse planeta 5.000 espécies de baratas. Ou seja, inevitavelmente, você vai cruzar com uma, ou várias, durante a vida. Exatamente como algumas pessoas, voadoras ou não. Então, já que fugir totalmente não é possível, precisamos aprender a conviver com elas.

Ei, espera! Você está achando que o problema é conviver com a barata voadora? Não, não, chinelo existe para isso. Problema de verdade é SER a barata voadora – daquela gente que causa transtorno por onde passa, gente malquista em qualquer lugar do mundo. Melhor imitar outro bicho, não? Se quiser voar, vire passarinho. Barata com asas é sacanagem...


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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