o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

Deixe a grama do vizinho em paz

A comparação é que torna as pessoas infelizes. De dentro do nosso mundo, o alcance da visão é sempre muito limitado. Bem sucedido é quem enxerga além. E não coloca mau olhado na grama alheia.


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Precisamos falar sobre a grama do vizinho, que coisa linda! Você olha da sua janela e acha bem mais verde do que a sua, não é verdade? Olhando assim, de longe, pode até ser. O que você não sabe é que as raízes escondem um fungo letal que a fará secar totalmente em poucos dias. Acontece que, da sua janela, o alcance da visão é muito limitado.

Você resolve fechar as cortinas e andar até lá. Quer perguntar ao jardineiro (porque o vizinho mesmo não precisa colocar a mão na massa) o que ele faz para manter a grama tão verde. Quando está prestes a sair de casa, chega o vizinho. UAU, que carrão, recém saído da concessionária! Você olha para dentro da sua garagem e sente vergonha do seu singelo automóvel. A vida não é mesmo justa, pensa. O que você não sabe é que o vizinho não dorme há meses, coloca a cabeça no travesseiro e pensa nas dívidas que adquiriu para manter um padrão imaginário que ele mesmo criou. Acontece que, da sua garagem, o alcance da visão é muito limitado.

Mas você está decidido a ir falar com o vizinho. Precisa saber como ele faz para manter a grama tão verde e ter um carrão daqueles na garagem. Quando está prestes a fechar a porta da sua casa, percebe que a mulher do vizinho está saindo para trabalhar: linda, bem vestida, madura, inteligente. Algum tempo atrás, soube que ela é uma executiva de alto escalão em uma multinacional, sempre tão simpática. Você se lembra da sua esposa, três turnos de trabalho por dia, parece cansada e, às vezes, imatura. Ah, que vizinho sortudo! O que você não sabe é que eles estão à beira da separação. Trancados em seus mundos corporativos, sequer conversam mais. Não, ela não é perfeita. Acontece que, da sua porta, o alcance da visão é muito limitado.

Maltratado pela existência, você bate a porta com força e vai em direção ao seu vizinho. Definitivamente, precisa da receita para ter uma grama tão verde, um carrão na garagem e a mulher perfeita. Quando pisa na calçada, ouve vozes. São os filhos do vizinho chegando para almoçar: engravatados e elegantes, todos com carros do ano. Você se lembra que hoje tem reunião na escola do seu filho, já sabe que ficou de recuperação. O mais velho, marmanjo, ainda mora contigo, diz que está estudando para concurso. Onde foi que você errou? Queria tanto ter filhos bem sucedidos! O que você não sabe é que os filhos do vizinho mal se falam, brigam faz anos, e nunca houve harmonia naquela casa. Visitam os pais sem muito carinho, vez por outra, só para cumprir o protocolo. Acontece que, da sua calçada, o alcance da visão é muito limitado.

Sem saber de muita coisa, você continua obstinado. Chega à casa do vizinho e, se sentindo o cocô cheio de moscas de uma vaca desnutrida, pergunta, finalmente: qual é o segredo para ter uma grama tão verde, um carrão na garagem, a mulher perfeita e filhos incrivelmente bem sucedidos?

O vizinho acha a situação engraçada, percebendo o seu estado emocional, te convida para entrar. Quer um drink, ele pergunta, já te servindo uma dose dupla daquele uísque caro que você só viu em foto, uma vez. A essa altura, você começa a achar que ele está querendo te humilhar, descaradamente. Armado até os dentes, exige uma explicação. Eu não tenho nada disso, diz o vizinho. Minha grama está morrendo com fungo, meu carro será confiscado, minha mulher pediu o divórcio e meus filhos raramente aparecem por aqui.

Constrangido, você agradece pela resposta e volta para casa (não sem antes beber o Uísque, até a última gota). Já do lado de fora, olha para trás por um instante e observa a residência do vizinho. Estranhamente, não a vê mais com tanta nitidez. Sente a vista embaçada. O que você não sabe é que a comparação é que torna as pessoas infelizes. Acontece que, de dentro da gente, do nosso mundinho particular, o alcance da visão é sempre muito, muito limitado. Bem sucedido é quem enxerga além! E não coloca mau olhado na grama alheia.


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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