o segredo da pausa

O que existe no silêncio dos intervalos?

JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa

O calango e o viajante

Uma fábula do cerrado para quem tem bom coração.


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O viajante de bom coração leva consigo pouca bagagem. Sabe que cada vez que pisa em solo novo, sua alma se mistura à paisagem. Tornando-se uma coisa só, é muito mais fácil viver. Foi isso que aconteceu quando chegou ao cerrado. De repente, seus olhos viraram lua, seus pés viraram mato e o sangue de suas veias começou a cantar baixinho um canto de cachoeira com voz de passarinho.

O viajante logo percebeu que aquela terra era diferente. Ali, o mar virava céu e o céu virava mar. Era preciso estar atento para enxergar, mudar de perspectiva, virar de ponta cabeça. Sem medo, resolveu experimentar. E viu suas pernas virarem árvores que, contorcidas, dançavam um balé suave. O viajante dançou a noite inteira. Quando a manhã chegou, cansado, adormeceu.

Acordou recebendo um beijo nos lábios de um bichinho que o olhava intrigado. Quem é você, perguntou? Sou o calango do cerrado, moro aqui, moro acolá, sou dono desse lugar. O viajante de bom coração faz amigos pelo caminho. Quando perceberam, os dois já estavam rindo, lembrando das histórias do Tamanduá. Um dia, ele também havia vivido por lá, mas quase extinto, levantou a bandeira e já não voltava para visitar. O mesmo aconteceu com o Lobo Guará. E coração do calango doeu de saudade.

Decidiram, então, sacudir a poeira. Haviam conversado a manhã inteira e já era hora de almoçar. O calango, animado, decidiu cozinhar. E em pouco tempo, um aroma diferente pairava no ar. O que é isso, perguntou o viajante? É pequi, vem provar! Só não pode morder, é melhor raspar. Almoço bom que é danado. Sobremesa, tem? Tem os frutos do cerrado, coisa melhor não há. Tem Baru, Cagaita, Araticum, Mama-Cadela para os males curar.

O viajante, que iria embora em poucos dias, resolveu ficar. Estava apaixonado por aquelas terras, queria aproveitar. Então, os meses se passaram. Aos poucos, a chuva foi cessando e o sol rachou de brilhar. Sem cair água do céu, viu o cerrado secar. Sendo ele e sua paisagem uma coisa só, a sede daquele chão na sua garganta dava um nó.

Viu o verde virar tinta e o fogo pintar de cinza o que a terra tinha a oferecer. O que estaria acontecendo? Viu tanto bicho correr. Pela primeira vez, o viajante teve medo de morrer. Mas o cerrado, encantado, não desiste de surpreender. Quando menos esperava e achou que a vida acabava, virou Ipê!

* Este conto participou do I Concurso Literário de Sustentabilidade do Cerrado Brasileiro.


JULIANA VALENTIM

Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa.
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