o sentinela psíquico

Olhar, apenas, não é o suficiente

João Douglas Brito de Sá Félix

"Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior."

A Perseguição (The Grey)

Já imaginou sofrer um acidente de avião bem no meio do Alasca, com nevascas, hipotermia, escassez de alimento, disputa pelo poder entre os sobreviventes e uma alcateia de lobos sedentos pelo seu sangue? Liam Neeson, o mais novo sessentão testosteronado de Hollywood, estreia essa mistura de thriller, ação e drama. A grande questão é que esse filme jamais foi sobre lobos, Alasca ou sobrevivência.


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The Grey (no Brasil intitulado de A Perseguição) é um filme americano escrito, produzido e dirigido por Joe Carnahan em 2011. Baseado num conto de Ian Mackenzie chamado “Ghost Walker”, a produção traz atores como Frank Grillo, Dallas Mark Roberts (isso mesmo, o cientista Milton da série The Walking Dead) e o já referido irlandês Liam Neeson.

O roteiro segue aquele esquema básico: logo nos primeiros dez minutos os personagens principais são introduzidos, assim como seus dilemas e alguns aspectos de suas personalidades. Depois, algo surpreendente ocorre e, sem querer, os “mocinhos” são envolvidos numa série de situações que precisam resolver se quiserem chegar ao fim da trama. Claro, nem todos conseguem salvar suas vidas, mas a premissa é essa. No caso de The Grey, os “mocinhos” são empregados de uma empresa que trabalha com a extração de compostos fósseis no Alasca. John Ottway, interpretado por Liam Neeson, é algo como um “badass” especialista em lobos, tendo sido contratado pela empresa mineradora para certificar que nenhum empregado será atacado pelos animais selvagens (eufemismo para “ele foi contratado para atirar nos lobos”).

Ao final de uma temporada de trabalho, Ottway e seus companheiros se preparam para retornar aos seus lares, embarcando em um avião da empresa. Durante o voo, entretanto, eles são pegos por uma nevasca e o avião vem ao chão. Atordoados e sem rumo, veem-se sozinhos no selvagem Alasca, perseguidos por incontáveis lobos cinzentos que, uma pessoa por vez, vão dizimando física e mentalmente o grupo. Ok! Chega de sinopse e vamos direto ao que interessa: esse filme jamais foi sobre lobos e sobrevivência em ambientes inóspitos. Altamente permeado de simbolismo à la Gustav Jung, The Grey reflete vários componentes psicológicos clínicos pós-traumáticos, além de fazer uma extensa dissecação e análise da personalidade frustrada e angustiada de John Ottway, um homem que jamais superou a perda da esposa.

Uma das primeiras cenas do filme retrata Ottway lamentando-se de sua vida atual em um monólogo, recitando sua carta de suicídio (que nunca veio a ocorrer): “Você me deixou e eu não posso te trazer de volta/Eu me movo como imagino que os condenados façam, amaldiçoados/[...] Eu parei de fazer bem a este mundo”. Com o cano de seu rifle entre seus dentes, no último segundo, o gatilho não é apertado: um lobo uiva na distância e, de súbito, as ideias suicidas são levadas também para longe.

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O lobo faz um papel especial neste filme. Não enquanto animal, mas enquanto símbolo. Como veremos, ele representa o principal medo do personagem de Neeson, sendo a personificação da Morte como uma força implacável e nebulosa, responsável pelo seu maior trauma. Ana (interpretada por Anne Openshaw) é sempre mostrada em ar de pureza, rodeada do branco dos lençóis e das roupas da cama de hospital na qual se deita. Além disso, raios claros de um dia límpido reluzem em sua pele e olhos brilhosos. Ana aparece durante várias passagens do filme em forma de memória e flashback, justamente quando Ottway mais se encontra sem forças e cheio de desilusão. Para os mais familiarizados com a Psicanálise, ela representa claramente a fixação do personagem, seu “objeto de amor” que estrutura toda sua tessitura psicológica. Qualquer semelhança com o seio da mãe enquanto “objeto de amor” que apazigua a angústia da criança, promove o Amor (Eros) e repele a Morte (Thanatos), não é mera coincidência.

Logo após a queda do avião, vemos que os poucos sobreviventes têm comportamentos amplamente distintos. Em meio à confusão de desejos e as tensões, naturalmente Ottway parece assumir a posição de líder. Não era de ser diferente, afinal a função do Ego é equilibrar as várias partes da personalidade. Opa, calma lá! Como assim? “Elementar, meu caro Watson”: os sobreviventes Diaz, Hendrick, Talget, Burke etc. são os vários aspectos da personalidade conturbada de Ottway.

Segundo a Psicanálise, o ser humano não é essa “máquina de razão” que achamos por aí. A maior parte de cada um de nós é, na verdade, desconhecida de nós mesmos. Daí advêm os famosos conflitos internos, ansiedade e angústia que são tão comuns aos seres humanos. Essas áreas desconhecidas, chamadas de material inconsciente, usualmente são componentes traumáticos ou de difícil aceitação por parte do sujeito e que precisam ser descobertos e trabalhados através da terapia (ou do autodescobrimento).

Nesse momento, o leitor deve estar se perguntando “mas o que isso tem a ver com o filme”? Basicamente, tudo. Como fica claro ao longo do mesmo, cada sobrevivente é um aspecto paulatinamente autodescoberto por Ottway de sua própria personalidade. Toda essa ação tem por objetivo enfrentar a presença inexorável da Morte (representada pelos incansáveis lobos quase sempre mostrados na penumbra, em formas distorcidas e implícitas, porém sempre presentes, como um mal invisível que todos sabem que está ali). Claro, o trauma de Ottway não é a Morte em si, mas a Morte de seu Amor, que é sua esposa, trauma esse bastante claro como não superado pelo personagem.

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Mas vamos lá nessa análise das personalidades de John. Diaz, claramente, é o antagonista. Sempre questionando a autoridade do personagem de Neeson, chega inclusive a desfia-lo para o combate físico. Ateu convicto, Diaz expressa sua total descrença na possibilidade de salvação e na bondade (algo bastante comum nos seus comportamentos antiéticos e até antissociais). Talget representa justamente o oposto, porque faz o papel da Fé. Não é coincidência ser justamente ele que Diaz acerta com um soco ao tentar bater em Ottway.

O personagem de Neeson, por sua vez um tanto descrente em Deus, ainda assume o desejo de “eu gostaria de acreditar”, deixando claro que ele abre a possibilidade de existência de algo transcendental. Afinal, para acreditar, é preciso assumir a existência, mesmo que imaginária, de algo. Ottway, novamente, representa o ponto de equilíbrio entre dois opostos, a Fé e a Descrença. Logo, John Ottway é o Ego freudiano.

Burke, até então um tanto ausente na trama, morre na manhã seguinte de hipóxia. Durante sua alucinação enquanto dormia, na noite anterior, sonha com a irmã que morrera jovem, levantando-se de seu sono falando coisas incompreensíveis. Opa, pera aí! Você falou que Burke também possuía uma mulher de quem gostava e que a morte dela ainda o assombra? Entendeu aonde quero chegar, leitor? Mais um aspecto do Ego revelado no enfrentamento da Morte.

Decididos a sobreviver, os restantes se veem de encontro a um teste de fé: saltar de um imenso penhasco cuja morte era quase certa. O observador atento viu que era fisicamente impossível realizar aquele salto. Se aceitarmos o que disse Kierkegaard sobre a Fé como sendo um “salto no escuro”, fica tudo mais claro. Quem deveria morrer ali era justamente Talget, personagem que representa esta crença naquilo que não se tem certeza.

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Andando mais em direção ao seu final surpreendente, encontramos apenas Ottway, Hendrick e Diaz como últimos sobreviventes. Diante da bela fotografia das montanhas cobertas de gelo do Alasca, decoradas por um rio que levará ao próximo ápice do filme, Diaz resolve revelar seu nome completo aos espectadores. Pasmem! Ele também se chama John. Coincidência? Acho que não. John Diaz e John Ottway finalmente apertam as mãos em sinal de que agora fizeram as pazes e podem lidar um com o outro sem atritos. Assim, a função de Diaz se cumpre e ele, deliberadamente, escolhe ficar e morrer olhando aquela belíssima paisagem. Ele encontrou sua própria natureza e, portanto, seu fim analítico.

Lembram do rio de agora a pouco, leitores? O rio, na simbologia junguiana, representa a incerteza, a passagem de estados, travessia. É justamente nele que, por um motivo até banal, morre Pete Hendrick. Claramente, se o ditado for verdade, a esperança é a última que morre. Pete, então, cumpre seu papel e nas águas da incerteza e da passagem ao novo ciclo da vida, deixa Ottway sozinho.

Numa das últimas cenas, John sem querer chegou ao único local que tentou evitar durante todo o tempo: o “ninho” dos lobos. Lá, em meio a carcaças de animais devorados, é alcançado pelos predadores, que o cercam. Nesse momento, ele olha a foto de sua amada esposa, sendo então revelado que ela não o deixou, mas sim morreu de uma doença terminal. Ao fundo, aparece o lobo alfa, imponente na sua pelagem totalmente negra. Para Jung, pai da Psicologia Analítica, a Sombra é justamente a parte de nossa personalidade que não queremos aceitar, por representar os aspectos mais malévolos que existem. O lobo não representa uma personalidade de John, mas sua coloração nos remete facilmente ao seu significado: finalmente, cara a cara, Ottway deverá enfrentar a personificação da Morte, responsável pelo seu grande trauma, a perda de sua esposa.

Num final atordoante e épico, escutamos o poema escrito por seu pai (“um irlandês beberão e briguento”), com quem aparentemente tinha uma relação um tanto esquisita e conturbada: “Mais uma vez na briga. Em direção à última luta que irei conhecer. Viva e morra neste dia. Viva e morra neste dia”. Será que John Ottway superou, finalmente, seu trauma?

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João Douglas Brito de Sá Félix

"Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.".
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