o sentinela psíquico

Olhar, apenas, não é o suficiente

João Douglas Brito de Sá Félix

"Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior."

Por que é impossível acabar com a corrupção?

Que os políticos são corruptos, pouco resta a duvidar. Mas já parou para pensar que talvez todos nós também sejamos? Não no sentido de furar filas ou ficar com o troco da padaria, mas em termos biológicos e psicológicos. Devemos nos fazer a pergunta: e se estivéssemos lá, agiríamos de forma diferente? O discurso narcisista diria que sim, mas a realidade, em toda sua dureza, parece apontar para a outra direção. A evolução também é um tapa de luvas na cara do moralismo.


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O Poder tende ao totalitarismo, ao controle absoluto e à total aniquilação da diferença e particularidade. Pelo menos é o que a História sempre mostrou e contra fatos não há argumentos. Uma rápida olhada no nosso álbum de fotografias humano mostra que todo regime político começa com as melhores das intensões e acaba sempre tendo que ser trocado por terminar fazendo o que de início combateu. Há vários exemplos, mas vamos ficar com os clássicos: Revolução Francesa, toda forma de comunismo/socialismo (e aí inclui-se o nazismo, que era nada mais nada menos que um nacional socialismo, como o próprio Hitler disse) e movimentos estudantis pelo fim da corrupção. Não podia ser diferente aqui no Brasil, já que boa parte dos indiciados por crime de improbidade atuais eram, na mocidade, jovens com ideias de um mundo melhor.

A teoria dos Três Poderes, pensada por Montesquieu, diz que o Poder é tão corruptível que somente o próprio poder pode pará-lo. Por isso, segundo ele, devem existir vários "centros de força" nas modalidades de governo, para que assim nenhum se sobressia. Por essa razão regimes com apenas um foco de poder são, inevitavelmente, brutais. Como reflexão, basta pensarmos nas nossas próprias vidas particulares. Salas de aula, residências ou locais de emprego nos quais apenas uma pessoa dita as regras ou tem poder acima dos outros tendem a ter o convívio cheio de atritos e tentativas de obter vantagem aqui e acolá com os mais sórdidos meios. Em salas de aula, cola-se, em residências chora-se ou faz-se birra e em locais de emprego faz-se corpo mole ou joga-se a culpa nos outros.

Mas vamos falar apenas indiretamente sobre o Poder e diretamente sobre sua potência de corromper. O Poder corrompe apenas porque quem o possui é passível de dobrar-se a ele. E, em se tratando de humanos, todos nós somos vulneráveis, uns em maior grau que outros. Corrupção, numa definição simples, é nada mais que tentar obter vantagem particular através do uso do poder conferido a uma posição social ou cargo. Ou seja, alguém recebe de alguma forma um Poder respeitado socialmente (cargo político, gerência, comando) e usa esse fato como instrumento para obter todo tipo de vantagem ou mesmo conferir dividendos questionáveis a pessoas específicas.

Agora é a hora de deixarmos nossa necessidade de dizer "eu sou diferente" de lado e assumirmos o fato de que as pessoas que obtêm grande Poder tendem a usá-lo em benefício próprio. Em outras palavras, as pessoas que encontram-se investidas de Poder comumente apresentam a tendência a transformar sua personalidade particular na personalidade do cargo que ocupam. É algo meio como se a essência individual fosse, através de uma mecanismo chamado identificação, transmutando-se em outra. Começa com uma ligação particular do telefone da repartição, depois com o uso do almoxarifado, depois com o uso do veículo fora de serviço, das salas, dos famosos pedidos extraoficiais, dos recursos financeiros...

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Mas a pergunta ainda reverbera: Por que somos corruptos? A resposta, porém, é simples: biologia e psicologia. O corpo e a mente humanos são feitos para escolher o caminho mais fácil entre dois pontos no tempo e no espaço. Se você tiver que percorrer dez quilômetros andando por um terreno íngreme ou por um plano, escolherá o plano. Se você tiver que estudar para uma prova 500 páginas e tiver a opção de estudar apenas as perguntas do teste, se souber que não será pego, provavelmente escolherá estudar as perguntas. A razão é que todo organismo deste planeta foi meticulosamente moldado ao longo de milhões de anos para sobreviver a todo custo, implicando em escolher caminhos com menos resistência. É bem documentado, por exemplo, que primatas como os chimpanzés utilizam-se de meios bastante "questionáveis" para manter-se no poder. Não raro o macho alfa estupra, assassina rivais, esquarteja e faz terror com seus opositores. Para saber mais, basta ler os trabalhos de etologia e primatologia do Craig Stanford, como o livro "Como nos tornamos Humanos".

Num cenário no qual ser honesto apresenta diversos empecilhos e em muitas situações uma impossibilidade de existência, qualquer um vira um corrupto latente. Não é a toa que vez por outra grandes empresas são descobertas fazendo crimes: se você quiser sair do micro empreendedorismo, provavelmente vai ter que fazer coisas questionáveis. Se você quiser enriquecer seu patrimônio mais rápido do que o normal e poupar dezenas de anos, vai ter que pensar em meios sórdidos. Se você quiser vencer as eleições, vai ter que se filiar a potentes partidos lobistas (vulgo, cheios de cabos eleitorais) e empresas, usando dos famosos jogos de interesse e propinas.

Essa tendência à corrupção aparece em qualquer nível social e, surpreendentemente, em qualquer nível educacional. Um dos ambientes mais corruptos são os sindicatos e os movimentos estudantis, ao contrário do que se possa pensar. Quem nunca ouviu falar que fraudaram as eleições de um Diretório Acadêmico ou que roubaram a urna com os votos do outro Grêmio Estudantil? Quem nunca ouviu falar de um líder sindical que foi assassinado ou que quando assumiu o poder "foi pro lado dos patrões"?

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Não é que a corrupção seja natural do ser humano, mas o seu princípio é que o é. O princípio da corrupção é obter vantagem pessoal e, como já falamos, o meio mais eficiente para isso é "escolher o caminho mais fácil": seguir as regras exige dedicação, consciência, abdicação pessoal em prol do público e muitas pessoas não têm tendência para isso, pois é custoso em termos de investimento pessoal. Aí temos um impasse, pois quem será aquele que, tendo às mãos o Poder para mandar e desmandar, para escolher e abdicar das melhores opções, escolherá para si jamais usufruir do que dali pode minar? Quem, podendo vender o mundo, escolherá comprá-lo?

P.S. Esse texto não é, nunca foi e jamais será apologético à corrupção. É apenas uma reflexão desprovida de moralismos.

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João Douglas Brito de Sá Félix

"Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.".
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