o sentinela psíquico

Olhar, apenas, não é o suficiente

João Douglas Brito de Sá Félix

"Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior."

"Meu filho é um irresponsável porque o criei bem demais"

Há apenas duas formas de "estragar" uma criança. A primeira delas é criando-a mal demais, deixando-a passar toda forma de necessidade emocional e material, carência e insatisfação. A outra forma, por incrível que pareça, é não deixando que ela sofra nenhum grau dessas coisas e criando-a bem demais.


Exatamente, isso mesmo que você leu. Criar os pequenos bem demais é um fator que pode levá-los à irresponsabilidade e desobediência.

Certa vez, uma mãe aflita procurou Freud para que este a ouvisse em seu desamparo e dificuldades quanto à criação de sua prole. O velho Sigmund, autêntico e profissional na arte de frustrar as pessoas como método de cura e tratamento, apenas falou "Eduque-o como quiser, de qualquer maneira há de educá-lo mal". O resto da história não sabemos, mas será que a mãe repensou sua estratégia de educação ou o Freud queria apenas tirar uma com a cara dela?

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Uma coisa ou outra, o fato é que recorrentemente ouço histórias de mães aflitas com seus pequenos "filhotinhos" e suas usuais insubordinações frente à escola, família, normas e exigências. Os relatos envolvem notas baixas, desinteresse dentro da sala de aula, xingamentos, incapacidade de reconhecer os próprios erros, irresponsabilidade com tarefas e obrigações etc. A frustração aumenta quando são pais que não pouparam esforços nem investimento na criação da prole. O que será que houve de errado?

"Doutor, eu fui criada na roça. Minha infância não tinha essas coisas que se tem hoje. Meu quarto era o canto da sala com um pano de uma parede à outra, no qual dividíamos a cama eu e meu irmão. Tínhamos apenas um prato e uma colher, que também dividíamos na hora do almoço. Era acostumada a acordar cedo pra ir para a roça trabalhar, "panhá" feijão, espalhar milho... Já meu filho tem tudo que quer. De tudo eu dou. Levo e busco na escola, nada falta em casa. Quarto, tem só dele, celular, tablet, cama. Não era para ele ser assim... Queria que ele tivesse mais responsabilidade com as coisas."

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Nesses casos, como costumo dizer, o problema não é o problema, sendo na verdade a falta dele a grande questão. Isso porque para se "estragar" uma criança basta criá-la mal demais ou criá-la bem demais. Quando se cria mal demais, a criança acaba por se sentir inferiorizada e sem valor, como uma espécie de fardo carregado pelos pais. Não raro, tem suas necessidades tão frustradas que acaba por se acostumar a "nada ter ou ser". Por outro lado, quando se faz da criança o centro do mundo e da vida da família, ela pode crescer achando que todos devem satisfazê-la e cair naquele típico perfil de alguém "sem coragem para a vida" e dependente, financeira e emocionalmente, dos outros.

Muitos pais não percebem que este excesso de cuidado é, na verdade, prejudicial. Lembro-me do caso de uma família que ao comparar a personalidade dos dois filhos adultos, encontrou na atitude simples da higiene pessoal a resposta. Com o primeiro filho, tudo era cuidado. A chupeta que caía era prontamente lavada, o primeiro choro era atendido; à cada queda, uma hora de carinho. Coisa de marinheiro de primeira viagem. Com o segundo, o filme inverteu-se. Não importava que chupeta caísse no chão, o choro era sabiamente ignorado; "caiu, esfrega um pouco e pronto, amanhã já tá bom". Resultado? Enquanto um dos filhos virou um adolescente dependente e com um sistema imunológico frágil (claro, afinal foi tanta higiene que nem deu tempo do corpo aprender a se defender), o outro era relativamente desapegado e até desenvolveu-se um pouco mais que o irmão mais velho.

Talvez uma habilidade esquecida em meio ao estresse da vida cotidiana, por parte dos pais, seja a de que é na necessidade que o gato dá maiores pulos. Ou seja, quer queira quer não, por mais que doa no coração, a aprendizagem necessita de um componente de esforço pessoal aliado a um "sofrimento produtivo", que é aquele que envolve a dedicação, a disciplina, a tolerância à frustração e por que não dizer a dor. Pessoas das quais não são cobradas responsabilidades jamais serão responsáveis.

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Para que isso seja evitado, deve-se sempre incentivar a responsabilização dos próprios atos na criança. Mesmo que aquele coração de pai e de mãe doa e palpite, fazer o bem e mimar apenas por laço familiar e afetivo é um péssimo incentivo. O ideal é que se trate bem e cuide das pessoas, claro, mas sempre deixando explícita a razão e o devido mérito para tal. Se a criança (ou adolescente) quer um brinquedo, deve primeiro fazer por merecer. Apenas por ser filho não é motivo suficiente. Muito menos o é o argumento frequente dos pais de que "desejo dar para ele ou ela o que eu quis e não tive quando jovem". Para ter, deve-se antes merecer.

Ao fazer esse tipo de ação, de satisfazer os desejos dos filhos sem que haja mérito para tal, estão inconscientemente (e conscientemente) ensinando aos pequenos que eles, de uma forma ou de outra, são o centro da família. Ao crescerem, podem sentir-se no direito de terem seus desejos sempre satisfeitos pelos outros e gerar para si uma série de relacionamentos dependentes, conflituosos e cheios de jogo de interesses e opiniões.

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Talvez possa parecer um pouco duro, mas não se pode esperar responsabilidade de quem nunca foi cobrado responsabilidade. Simples assim. O melhor caminho para adultos responsáveis é crianças que respondem por obrigações, de acordo com sua idade, capacidade intelectual e física, claro. Além de que certo grau de "precariedade material" é um fator altamente educativo do ponto de vista econômico. Aqueles que podem se dar ao luxo de substituir ou trocar facilmente um objeto raramente darão o devido valor a ele.


João Douglas Brito de Sá Félix

"Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.".
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