o ser e o nada

a síntese humana

Rafael Mendes

racionalismo, empirismo e prática de vida

Todos nós temos inúmeros questionamentos extremamente particulares e profundos. Talvez, em algum momento de sua vida, você já tenha se perguntando: estou sendo correto comigo e com as demais pessoas que me cercam? Talvez a Filosofia possa lhe ajudar


duas_conversas.jpg Créditos à Stefanie Rubia

Todo ser humano esconde dentro de si uma infinidade de mistérios ininteligíveis. Talvez, e muito provavelmente sim, muitos desses questionamentos quase não são percebidos por nós mesmos, no momento em que os temos, pois são inatos a nossa existência, são anteriores a nossa percepção do mundo. Por exemplo: você respira de forma automática ou fica se lembrando da necessidade de respirar?

Um dos questionamentos que mais me impelem a profunda reflexão pessoal é o meio pelo qual devo pautar minhas relações interpessoais e a forma como apreendo os acontecimentos da minha própria vida. Antes, devo fazer algumas considerações: não me recordo em qual momento me deparei com o termo ‘Cogito, ergo sum’, ou, ‘Penso, logo existo’. Basta saber que interferiu na formação de meu caráter e na minha visão de mundo. Tornei-me um voraz perseguidor dos porquês da sociedade e do mundo ao meu redor, um racionalista convicto.

A geração beat pode ser resumida, para mim, em uma única obra: On The Road, de Jack Kerouac. A geração, o ideário e os personagens, são a representação máxima do que considero como ter liberdade, bravura e coragem na experiência da vida. Porém, quando coloca-se a razão defronte aos relacionamentos humanos perde-se a experiência, perde-se automaticamente um dos nossos traços distintivos dos demais animais: a capacidade de criar laços afetivos, humanos.

Durante muito tempo me senti alheio aos acontecimentos que me circundavam. A racionalidade que usava para responder meus porquês foi tomando conta de meus relacionamentos. Não sou o único: dentro de seu círculo de relacionamentos, caro leitor, certamente haverá aquele distinta amiga que terá resposta para tudo e que pouco se importará com o peso de suas verdades.

Racionalismo, Empirismo e Filosofia

A Filosofia, em sentido amplo, pode ser entendida como o “saber em proveito do homem”. Ou seja, nossos questionamentos diários também são filosofia. Quando nos incomodamos com alguma situação e, posteriormente, passamos a relembrá-la tentando entender sua lógica e significado, também é filosofia.

Por muitos séculos filósofos discutiram sobre a origem do conhecimento humano, a origem do saber. De um lado posicionavam-se os racionalistas que, liderados por Descartes, defendiam a tese de que todo conhecimento só pode provir da razão, ou seja, que todo conhecimento só se dá através da razão, devendo-se duvidar de tudo – menos da própria dúvida. Contudo, mesmo postulando nossa vida através da razão, os seres humanos continuavam cometendo erros, assim, era necessário à criação de um método para orientar a razão.

Indo na contramão da razão como máxima, o Empirismo colocava que a “experiência é norma ou critério da verdade”. Desta forma, para que algo seja considerado como verdade, deverá passar pela experiência, deverá pode ser percebido pelos nossos sentidos. Logo, nosso conhecimento sobre o mundo é necessariamente limitado, pois nossos sentidos são limitados. Mas aqui reside uma grande particularidade do Empirismo: a verdade pode e deve ser posta a prova, podendo ser corrigida e abandonada.

Filosofia e prática de vida

Inúmeros motivos levam-nos a criar uma couraça em torno de nosso coração, de nossos sentimentos. Variam em grau e circunstância, mas têm o mesmo efeito nefasto sobre nossos relacionamentos afetivos, qual seja, acaba-se racionalizando aspectos da vida que devem ser experimentados, sentidos, tocados.

A Humanidade tem como um de seus significados o “sentimento universal da simpatia” que nos diferencia dos demais animais. É um belo ideal, eu sei. Os Racionalistas não o entendem, pois racionalizam as relações humanas, não conseguem ter essa simpatia visto que consideram o ‘outro’ quase como um estranho, afinal, o ‘outro’ não é racional.

Ao pautar a vida através da razão perde-se não somente a humanidade, mas também a experiência. É fácil constatar: quando problematizamos alguma situação em nossas vidas e a analisamos através da razão facilmente é possível concluir se tal situação é – foi ou será – favorável ou não. Contudo, ao prevermos antecipadamente os resultados das ações anulamos, por consequência, a possibilidade de apreender os limites de nossa razão, a possibilidade de experimentar os limites da vida. A razão está longe – (in)felizmente? – de nos dar respostas que nos livre das dores e dissabores da vida, assim como ações baseadas na experiência.

Se a razão e a experiência têm limites qual norte devemos utilizar? Impasses teóricos costumeiramente levam a reavaliação de seus postulados e premissas, levando ao surgimento de uma nova síntese, uma terceira via. Creio que a síntese de razão e experiência também deva ser o melhor caminho para nossas relações humanas, usufruindo o que há de mais belo em cada uma delas.

bibliografia: ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia.. 5ª Edição. São Paulo: Martins Fontes, 2007.


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