o ser e o nada

a síntese humana

Rafael Mendes

Refugiados: origens e história

Para entendermos a diáspora dos refugiados é necessário que entendamos um pouco de sua história, pois sem conhecê-la perdemos o lado humano da situação e acabamos por não compreender a dimensão do drama dessas pessoas. Elas buscam apenas um recomeço, seja onde for. Buscam uma nova vida.


a.jpg Família síria em campo de refugiados no Líbano (Fonte: Focus On Syria)

O calvário dos refugiados que tem chegado ao continente europeu possui um pano de fundo complexo. Os noticiários têm mostrado o imenso sofrimento daqueles que fogem das mazelas das guerras e conflitos civis. São pessoas de distintas camadas sociais, gênero e idade, mas todas com algo em comum: a busca por um recomeço.

Diversos países europeus, do Oriente Médio e o Brasil têm recebido esses refugiados. O próprio Papa Francisco solicitou que os mosteiros abrigassem uma família, ao menos. Contudo, todo esforço ainda parece pequeno diante da tragédia humanitária que está acontecendo. Centenas, talvez até milhares, de pessoas já morreram nas perigosas travessias do Mar Mediterrâneo. Outras milhares morreram devidos ao conflitos da Guerra da Síria – estopim dessa diáspora de refugiados.

Para que possamos entender a situação atual dos refugiados, é necessário, contudo, que entendamos um pouco de suas origens e de sua história.

Estado Islâmico

O Estado Islâmico existe desde o início dos anos 90 sobre diferentes nomes e lideranças. Seu líder Abu Musab al-Zarqawi ganhou notoriedade na Jihad (que pode ser traduzida como “um esforço em favor de Deus”) Islâmica através de seus atentados suicidas contra áreas predominantemente Xiitas (dentro do Islã existem duas correntes distintas: Xiitas e Sunistas: os últimos tem o Alcorão como livro sagrado e também aderem a Sunna, espécie de livro biográfico de Maomé. Já os Xiitas aderem ao preceito de que o líder religioso deve vir da linhagem de Maomé e não aderem a Sunna) no Iraque.

Após os EUA invadirem o Iraque, Zarqawi, com o apoio de Bin Laden, funda a AQI (al-Qaeda in Iraq). Daí em diante, o terror extremo que vemos nos noticiários começa a tomar forma, pois Zarqawi passa a se ver como líder espiritual, implantando a Sharia (sistema jurídico baseado no Alcorão) para a população que estava sob o domínio de seu grupo, ou seja, véu para as mulheres, decapitação para os criminosos, enfim, todo o horror que vemos propagado pela internet nas ações do E.I atualmente.

Em 2006 Zarqawi é morto pelos EUA e a organização parece desaparecer. Infelizmente, não desapareceu. Em 2011 ela surge com seu novo – e atual – líder, Abu Bakr al-Baghdadi, e com um novo nome: Estado Islâmico do Iraque (Islamic State of Iraq, ISI). A organização cresce ao incorporar antigos membros do exército iraquiano fiel ao ditador Saddam Hussein e passa a atacar não só os Xiitas, mas postos militares. Desta forma foi possível a abertura de uma segunda frente de batalha, agora, na Síria.

Ao entrar na Síria o ISI muda de nome mais uma vez e torna-se o ISIS (Islamic State in Iraq and Syria), ou, simplesmente, Estado Islâmico. Na Síria eles passam a lutar contra o Presidente Assad e seus seguidores, que fazem parte de uma subdivisão Xiita. O E.I avança rapidamente na Síria e consegue tomar cidades importantes na fronteira com o Iraque e estabelecer domínio na região.

Indico o documentário abaixo feito pelo Vice News e que mostra a vida das áreas sob domínio do Estado Islâmico. É extremamente didático para entendermos exatamente do horror que os refugiados estão fugindo.

Guerra da Síria

Entendermos um pouco sobre o Estado Islâmico explica parte da origem do problema dos milhões de refugiados que se espalham pelo mundo. É urgente que nos preocupemos e ajudá-los, mas também é necessário entendermos sua história. Boa parte destes refugiados fogem da Guerra da Síria.

A Síria era considerada um país laico, ou seja, onde religião e política não se misturavam, assim como no Brasil – mesmo que isso não seja exatamente fidedigno, em ambos os casos. E, assim como o Brasil, só que aquele da Ditadura Militar, era um regime de partido único liderado pelo Baath, do presidente Assad.

Em 2011 a Primavera Árabe (série de levantes populares que buscavam acabar com as ditaduras no Oriente Médio) chegou à Síria. Esses levantes populares não buscavam necessariamente a Democracia, mas sim o fim das ditaduras. O problema é que na Síria o presidente Assad resistiu e reprimiu com extrema violência os opositores, que se radicalizaram.

Com o avanço do conflito entre opositores e Assad houve espaço para que o Estado Islâmico entrasse no país e tomasse controle de algumas regiões, criando ainda mais instabilidade no país.

O saldo de toda essa guerra: cerca de 250 mil mortos e mais de 3 milhões de refugiados.


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