o ser e o nada

a síntese humana

Rafael Mendes

Subsolo, existencialismo e pós-modernidade

A vida pós-moderna encontra-se liquefeita. Deus está morto e vivemos no reino da ciência e tecnologia. Contudo, avança a solidão profunda dentro do indivíduo. Para resolver tais problemas, a leitura e análise dos clássicos de Sartre e Dostoiévski são primordiais.


16096954449_c878811691_z.jpg Créditos à Stefanie Rubia

Existem perguntas que não cabem na mesa de um bar, no almoço de domingo, no futebol de terça, no cinema com amigas na quinta. São questionamentos tão profundos, densos e importantes que muitas vezes preferimos passar incólumes por eles, pois, assim como uma colmeia ameaçada pode nos trazer dor física, certos questionamentos podem nos causar sofrimento psicológico.

A morte de Deus trouxe consigo um fardo valoroso: a responsabilidade sobre a vida tornou-se exclusivamente nossa. Não há – ou, ao menos, não deveria haver – espaço para que a ação humana fosse justificada por ou através de deuses sempiternos. Nossa liberdade é infinita na medida em que somos responsáveis pelo nosso bem estar e que este não afete outrem. Essa é a única lei.

A discussão sobre a moralidade humana, a construção do eu, a morte de deus. Desde tempos socráticos diversos escritores se debruçaram sobre tais temas, usando diversas e diferentes abordagens, passando de posições criacionistas até evolucionistas. Não importa como isso é representado, o fato é: o ser humano busca a todo o momento entender o que foi, o que é e o que virá a ser.

Destas premissas urge o questionamento: despidos de todas as máscaras sociais e psicológicas, quem somos? Ou melhor: como construímos aquilo que somos?

Humano, demasiado humano

Matéria-prima de inúmeros escritos filosóficos e literários tal discussão era recorrente nos personagens realistas de Dostoiévski e no existencialismo de Sartre. Se o russo inaugurou a discussão existencialista da condição humana, o francês deu o enfoque filosófico necessário para a doutrina.

Este último, em seu manifesto “O Existencialismo é um Humanismo”, aponta que devido à falta de um Deus, somente no ser humano há a capacidade de existir antes de definir-se. Ou seja, não existem dogmas morais perenes que nos arrebatam já na concepção, visto que não há ser criador anterior a tudo. Desta forma, somos o que fazemos de nós mesmos. O manifesto de Sartre parece normatizar filosoficamente a construção moral do personagem principal das “Notas de Subsolo” de Dostoiévski. Seu personagem sem nome imprime um ritmo patológico à descrição que faz de si próprio, numa imensa tormenta de refutações e contradições, tão reais, tão existencialistas. Sim: Dostoiévski foi existencialista muito antes de o termo ser cunhado com o sentido atual, afinal, suas notas estão cheias da precedência da existência sob a essência.

O subsolo seria a camada mais profunda da alma, onde existe apenas a moral pura de cada um, sendo impossível que haja distorções que tornem a realidade mais palatável – tão comum em momentos de dificuldades. Assim, o personagem sem nome descreve-se de forma ácida ao mesmo passo que descreve a sociedade czarista russa do século XIX, com uma honestidade que demonstra a construção de seu ‘eu’ durante o livro. O subsolo é a própria consciência humana. Contudo, ele é um homem doente, que padece de um extremo sentimento de inferioridade, condenado à degeneração.

Mundo líquido

A pós-modernidade, ou a sociedade líquida de Bauman, está tão degenerada quanto o personagem do subsolo, porém, no sentido oposto. A modernidade buscava uma sociedade em que as utopias deixariam o plano das ideias; onde a coletividade sobreporia o indivíduo. Tudo se liquefez. A sociedade moderna reproduz em escala industrial seres egoístas, pré-moldados, ou seja, são definidos antes mesmo de nascer, contrariando toda a construção existencialista de Sartre.

Diante da padronização irrestrita de todos os níveis da vida, cria-se uma situação onde não há espaço para o novo, para a (re) descoberta. Padrões morais, éticos e religiosos são o abrigo último que muitos encontram para sobreviver ao caos da vida pós-moderna. Padecemos na contramão do personagem de Dostoiévski: enquanto aquele adoece devido à hipersensibilidade de sua alma, nós padecemos da insensibilidade para construir nosso subsolo. Soçobramos. Nosso subsolo não é existencialista, mas sim vicioso: álcool, cigarros, ansiolíticos, redes sociais, extremismo religioso. Uma enxurrada de opções nos são oferecidas para buscar algum alívio imediato, que atenue toda a frustração que carregamos em nossas mentes e corações.

De volta ao subsolo

Deus está morto. A sociedade se liquefez. O subsolo parece inatingível. Qual a saída para a melancolia baseada no rigor moral da pós-modernidade? A saída, talvez, esteja nas palavras de Sartre que dizia que o homem é responsável por todos os outros homens na medida em que se define, pois ao construirmos nosso ser, criamos uma imagem de como todos deveriam ser.

É necessária uma profunda introspecção, de cada um de nós, buscando o aperfeiçoamento individual – e coletivo, por consequência. É possível recriar um mundo onde utopias sejam almejadas, onde o coletivo sobreponha o individual. Para isso é necessário que nos livremos dos grilhões morais, que nos aceitamos como seres em construção, como seres existencialistas.


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