o silêncio.

Este pequeno espaço que nos separa.

Anna Lucchese

Se me perguntar que palavra me explica melhor, direi "rio"

O lugar da inspiração

A rotina precisa ser o lar da criatividade.


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Imagem: Luana Ferrari

A busca é sempre o lugar da inspiração, diferente da espera. Pode-se passar uma vida descobrindo ou construindo esse esconderijo aconchegante da alma e cada passo é um poema na vida daqueles que criam suas histórias.

E esse processo não pertence somente aos artistas, todo o ser humano encontra vida através da criatividade, mesmo para executar a menor das tarefas diárias.

A inspiração deve ser parte da rotina assim como escovar os dentes, beber água ou dormir. Ela não pode se limitar a um mês de férias em uma praia paradisíaca, no celular com tempo pré-determinado no modo silencioso, em um banho de cachoeira uma vez por ano, ou no mundo distante do amanhã. O lugar da inspiração não é o da espera.

Pablo Neruda teve três casas que se transformaram em museus no Chile. Cada uma delas foi sendo moldada pelas necessidades cotidianas do poeta.

Ele precisava estar dentro do mar todos os dias e assim transformou seu lar em um barco, mas também precisava da paixão, que trouxe na forma de objetos mágicos aos quais dava nome para que ganhassem vida.

A casa de Santiago em que morou com sua amante e futura esposa deu o nome de La Chascona - a despenteada. E existe uma definição melhor para inspiração do que despenteada? A representação de uma beleza única derivada de um conjunto sublime de coisas: a natureza própria e selvagem daquele cabelo, somada ao ambiente de intemperes que o esculpe diariamente e, finalmente, o olhar atento do poeta que vê a beleza em tudo que expressa vida e personalidade.

Assim, o ambiente que dá espaço para a alma transbordar não segue padrões de perfeição, pode ser até bem apertadinho, sem janelas, sem cor, sem lógica. Precisa ser apenas o espaço que devolve à pessoa aquilo que ela precisa, a um estado de lar interno.

Não há regras para o que cada um necessita para conectar-se consigo mesmo. Mas a rotina tem que ser construía como um caminho para essa fonte vital.

É meio que uma farinha que dá a liga entre o que vem de dentro de si, o que vive na companhia dos outros e o ambiente em que habita.

Assim, Neruda percebeu que encontrava inspiração ao acordar cedo, ao organizar jantares para os amigos, ao dormir uma horinha depois do almoço e no isolamento de sua poltrona favorita. Nada de praias paradisíacas, apenas a pura rotina criativa.

A vida cotidiana precisa ser isso, o lar que dê o espaço necessário para que uma pessoa se sinta inteira por dentro, para que mesmo as atividades práticas sejam alimentadas por um tempo mágico. Afinal, quem nunca precisou lavar uma louça para chegar a resolução de um problema? E que parcela da população consegue se dar ao luxo de fugir do trânsito, da poluição, do barulho, da necessidade de criar os filhos, das demandas de gente enlouquecida pelo trabalho, para viver no espaço ideal de um fluxo criativo sem interrupções?

O lugar da inspiração precisa ser cavucado no meio de toda essa confusão, despenteado numa manhã chuvosa em que todos ainda dormem, menos a alma, faminta por sua coleção de tesouros por dar nome para que se transformem em poesia.


Anna Lucchese

Se me perguntar que palavra me explica melhor, direi "rio".
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