o silêncio.

Este pequeno espaço que nos separa.

Anna Lucchese

Se me perguntar que palavra me explica melhor, direi "rio"

Que palavra pode explicar um homem?

No filme “Cidadão Kane”, o diretor Orson Welles investiga o silêncio do ser humano, aquele lugar onde ele se esconde, aquilo que em nenhum momento é dito, mas está estampado na busca de uma vida que nunca chega a encontrar o significado para sua existência.


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Ilustração de lecamaria

“Rosebud” ou “botão de rosas” diz muitas coisas sobre a identidade do magnata da imprensa norte-americana, Charles Foster Kane, personagem principal do filme “Cidadão Kane”. Coisas que são mostradas durante toda essa história de ficção sem chegar a uma conclusão típica de um filme hollywoodiano.

O objetivo da narrativa é entender quem foi esse magnata que acaba de falecer, cercado por solidão e mistério. O ponto de partida é a última palavra dita por ele em seu leito de morte: “rosebud”. E, na sequência, uma série de depoimentos tenta desvendar o significado desse desabafo final.

Orson Welles, o diretor da obra cinematográfica, quer chegar ao silêncio do ser humano, aquele lugar onde ele se esconde, aquilo que em nenhum momento é dito, mas está estampado na busca de uma vida que nunca chega a encontrar o significado para sua existência.

Na sequência inicial, o espectador é advertido por uma placa: NO TRESPASSING/NÃO TRASPASSAR. Welles gosta de conversar com seu público e, do início ao fim, estabelece esse diálogo de sinais. Você não chegará ao silêncio daquele homem. Da mesma forma, como ele não permitiu que nenhuma outra pessoa em sua vida o fizesse.

Quando Kane conhece a mulher que seria sua segunda esposa, nota: “Você realmente gosta de mim, mesmo sem saber quem eu sou.” Como se ela pudesse ver o menino inocente por detrás de todas as máscaras que ele construiu para si. Tem a esperança que o outro encontre e entenda o que ele mesmo não é capaz: a sua natureza pura e inteira.

Charles Foster Kane não é um homem inteiro. Ele se assemelha ao personagem principal de outra obra de ficção, “O Visconde partido ao meio”, de Ítalo Calvino, uma fábula que conta a história de um homem partido ao meio por uma bala de canhão durante a guerra. Do incidente, sobram duas metades, uma extremamente má e outra, profundamente bondosa. Com isso, o livro analisa a condição humana cheia de contradições e dualidade. No filme, tanto o magnata, como outros personagens secundários, caminham da sombra para a luz em diversos momentos. Com isso, Welles envia outro recado ao espectador. Todo o ser humano carrega luz e obscuridade dentro de si.

Assim, esse homem segue a vida buscando algo que complete sua outra metade, sem nunca ter êxito. “A única coisa que ele queria da vida era o amor. Essa é sua história. Como ele o perdeu.” Resume outro personagem. E Kane mesmo completa: “Um brinde ao amor nos meus termos. Os únicos termos que uma pessoa conhece: os seus.” E, dessa forma, ele explica a sua incapacidade diante da afeição, da qual sempre se protegeu por medo de sofrer de novo o trauma do abandono por parte da mãe.

O abandono revela mais uma característica marcante do personagem. Ele nunca deixou de ser uma criança. Seu desenvolvimento foi interrompido nesse botão que personifica a inocência da infância. Ele permanece congelado no dia em que sua família o entregou a um banco, quando ainda era pequeno. Esse trauma o impede de fazer a passagem para a vida adulta. Seu mundo transformou-se em um parque de diversões sombrio que o leva da euforia à profunda frustração. Mais uma vez, o cineasta manda outra mensagem para o público, que passa a ser essa criança ao assistir às cenas de baixo para cima em um ângulo que deixa tudo mais assustador e trágico. Quando maior a derrota, mas baixa a câmera fica.

Durante todo o filme, a feição de Kane permanece inabalada diante de todas as decepções e desencantos, enquanto os outros personagens sofrem ao seu redor. Além disso, a obra cinematográfica conta a história através de suas vitórias e fracassos. Pouco se fala sobre os momentos de ternura, alegria ou dor. Tanto que a morte de sua primeira esposa junto com seu filho é rapidamente mencionada. Mesmo o nascimento do filho não é mostrado. Para onde foram esses momentos dentro de sua biografia? Perderam-se. Diferente dos milhares de objetos que colecionava, as pessoas partiram, desapareceram no tempo, fazendo com que esse enorme quebra-cabeças que poderia lhe dar sentido, fosse para sempre incompleto.


Anna Lucchese

Se me perguntar que palavra me explica melhor, direi "rio".
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