o silêncio.

Este pequeno espaço que nos separa.

Anna Lucchese

Se me perguntar que palavra me explica melhor, direi "rio"

QUESTÃO DE GÊNERO

A maior revolução feminista deve ser feita pela mulher, dentro dela mesma.


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Ilustração: lecamaria.

Fui convidada para participar de um debate sobre a atuação das mulheres nas artes e comecei a fazer uma autoanálise buscando elementos na minha vivência que pudessem acrescentar algo a essa discussão.

Nunca fiz um filme ou trabalho artístico feminista, não sou um exemplo de vítima do machismo, sempre me dei muito bem com os homens, mais até do que com as mulheres e, para ser sincera, essa reflexão sobre minha condição de gênero é algo muito novo para mim.

Minha vida sempre foi guiada pelo impulso. Minhas maiores referências agiam assim e, inconscientemente, o fato de não me entender como parte de uma categoria de gênero me fez ir além.

Quando digo além, não me refiro às conquistas profissionais, ao desenvolvimento da autoestima ou ao tal do “empoderamento” tão necessário ao universo feminino.

Minha grande conquista tem sido meu desenvolvimento diário como ser humano sem me restringir ao que posso ou não fazer.

Pego como exemplo minha área profissional. Muitas das mulheres que conheço tem como perspectiva o trabalho como produtoras ou apresentadoras de TV. Nunca tinha visto problema nisso até que comecei a reparar como algumas delas são infelizes nessas posições. A condição de gênero limitou o bem mais preciso para o seu desenvolvimento: a curiosidade, a possibilidade de experimentar outros caminhos pelo simples prazer de exercer a liberdade da vontade. E, dessa forma, um machismo silencioso e desapercebido se estabelece dentro de nós mesmas.

Quando comecei minha carreira, queria ser roteirista, acabei tendo a oportunidade de trabalhar como produtora, passei a operar câmera, virei editora e, quando me dei conta, tinha me transformado em uma diretora. Poderia ter ido para a publicidade, mas preferi o documentário. Gostaria de me destacar no cinema, mas descobri a televisão.

Ainda assim, o fato de ter feito essas escolhas com base na minha vivência não me aumenta ou diminui como mulher se eu não continuar uma pessoa livre, se eu não puder me permitir viver um grande amor, ter filhos, viajar, ou largar tudo para colocar a vida em movimento, para fazer coisas que nunca fiz e me atraem, não pela minha condição de gênero, mas pela curiosidade de conhecer o mundo de possibilidades que existe dentro e fora de mim.

É claro que essas escolhas têm consequências e reações, que muitas vezes estão ligadas ao machismo dos outros. Não vivemos isoladas na sociedade. Atitudes ousadas podem despertar a raiva, afastar amores e amizades, causar mudanças profissionais, gerar muito desgaste emocional e, acima de tudo, provocar uma transformação profunda, não nos outros, mas em nós mesmas.

Apesar de tudo isso, é importante que a mulher tome para si o protagonismo de sua história. Cada ser humano tem diferentes vivências e a minha liberdade de escolha não corresponde a realidade de muitas almas aprisionadas ao meu redor. Ou seja, o fato de não me considerar uma vítima do machismo não significa que ele não exista.

Quando percebemos um certo exagero por parte de algumas feministas é importante entender que elas podem estar carregando traumas que não fazem parte de experiências que vivemos e anos de silêncio podem gerar uma reação muito mais forte do que o nosso padrão social quer enfrentar.

Inclusive, tocando na questão “padrões”, essa força invisível que nos domina, sempre me faço a seguinte pergunta: Quem disse que algo deve ser feito de uma forma ou de outra? Você conhece essa pessoa? Como ela pode me garantir que outras maneiras não são válidas e, quem sabe, podem até vir a se tornar o padrão?

Não existe uma fórmula de comportamento que separe ou unifique homens e mulheres. Somos diferentes tanto como parte de um grupo quanto como indivíduos. Além disso, somos todos cheios de sentimentos que nem sempre controlamos. É isso que nos torna interessantes e vivos. A grande questão é tentar entender e transformar barreiras sociais que impedem o desenvolvimento natural de um indivíduo e não justificar uma atitude com um “ah, isso é coisa de homem” ou de mulher. Em pleno século XXI, temos inúmeros exemplos que nos mostram que o buraco é bem mais embaixo.

A única coisa que temos são NOSSAS decisões e elas devem refletir a NOSSA vontade de ser, acima de tudo, pois elas são NOSSA responsabilidade, por mais custoso e transformador que isso possa ser.


Anna Lucchese

Se me perguntar que palavra me explica melhor, direi "rio".
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